Lista de Poemas
Garça descontrolada
diante do mar,
o homem de terno e gravata
põe a pata leonina no cais.
sílabas tangidas, constrangidas
pelo aguilhão da sua caneta,
assim a marcha da linguagem,
ninguém dirige minhas palavras.
seguranças à volta,
persuarde-o o azul,
mira indistinguíveis andorinhas
e abona a violência da gaivota
que explode no ar.
excitam-no as fragatas,
aves-de-guerra, piratas-do-mar,
garças do governo,
com a estrutura cristalina
do hábito de roubar, assediar
até à rendição e as aves perseguidas
regurgitem o peixe.
faz apologia do sangue
no bico do polvo,
no bico das aves de rapina.
diante da fêmea,
plumas da fama,
esplêndidas cores,
altivamente exibidas,
subcorrem horrores
das subcorrentes,
delitescências,
por baixo de outras,
opostas ao povo.
um país em contato
com águas turvas
deliquesce.
diante do mar,
o homem sem paletó e gravata
encolhe a pata como uma garça,
se inspira nas proas cortando a água,
abissais inspirações, faz-se de surdo
para o Poema dos Lázaros
que só ganham retalhos para cobrir as feridas,
feridas corcundas.
olhos de águia-marinha
para além da ponte e horizonte,
no bolso, em prontidão,
a caneta oportunista, generalista,
caçadora, predadora,
capaz de capturar outras canetas-
roubar suas presas-,
uma caneta com bico ensanguentado.
LASANA LUKATA
Depressão
Uns se jogam embaixo do trem.
Outros saltam de cima da ponte.
Minha professora, depressiva-,
se jogava embaixo do marido da vizinha.
Escrevo
Escrevo para me comunicar com as almas,
porque sou poema,
para não ser devorado pela omissão.
Garça branca, noite escura,
mais noturna a solidão,
tudo foi literatura.
hai kai
Garça solitária-
Apenas o movimento
do ramo sem ninho.
às mulheres sofridas desse mundo
solitária garça,
a mulher descasca batatas na varanda:
batatas domesticadas,
batatas arrancadas do quintal,
batatas escondidas na terra,
sob a pele o encapotado coração.
como domesticar o coração?
espremidos entre a lógica e a razão,
coração e batata pedem espaço para crescer,
mas é outono, e em trajes de Eva
a mulher descasca batatas na varanda,
estrelas desencapotadas de seus brilhos são pedras,
pedras encapotadas em seus musgos, duras esperanças.
à mesa um lápis de chumbo fardado de ovelha
para transferir furores à pedra, ponta metálica.
detumescência,
a noite levemente iluminada,
em busca do coágulo,
a vertiginosa sutileza enfia a mão no peito
e coloca na vasilha com água,
entre os cardumes de batatas,
o coração que se desfolha.
Periferia
o vento de outono soprou
e fui colhendo folhas...
em cada uma havia um verso
e todas juntas um poema,
que agora averbo em teus ouvidos
e na margem deste mundo.
o meu poema te rodeia,
espaço branco producente,
de umidade e razão.
garça, alba plumagem
onde escrevo teu nome.
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