L. Alexandre Santos

L. Alexandre Santos

n. 1997 BR BR

Mundos à beira do abismo.

n. 1997-08-30, 30/08/1997

689 Visualizações

Nó e Abismo

O peso de existir já costurava minha pele com linhas de vento,
e o laço do silêncio apertava o pescoço da alma.
Não era corda, era destino trançado,
um elo final com o invisível.
Na travessia, o que se abre não é porta,
mas um espelho que se nega a refletir.

Assisti ao meu próprio desaparecimento,
como se a sombra tivesse engolido a carne.
E ainda assim, o fim não era o fim,
era um degrau que escorria das nuvens
até um céu cinzento que não lembrava o paraíso.

Vi uma escada sem cor,
erguida entre os ecos e os relâmpagos do espírito.
Do outro lado, duas presenças imóveis,
uma vestida de luz que não aquecia,
outra escondida no contorno do escuro.
Ambas me observavam, mas nenhuma me dizia o nome.

Formou-se ali um tribunal sem paredes,
onde os veredictos não são falados, apenas sentidos.
Não carregava sangue em minhas mãos,
mas também não restava flor em meu peito.
A sentença era névoa,
A redenção, um cristal rachado pela dúvida.
Seria o alto um oásis?

Seria o abismo, apenas o eco de mim?
A resposta dormia nas mãos invisíveis que me pesavam.
A luz calou-se.
A sombra sorriu.

Ali, compreendi:
o que termina sem entrega, recomeça sem escolha.
O fio que rompi não era só meu,
era tecido com vozes que ainda me chamavam.

O destino decidiu.
A ilusão caiu.
Não havia juízo, apenas joguete.

A luz era ausência.
A sombra, dono do jogo.

Sem festa.
Sem retorno.
Apenas pedra, brasa e espelho quebrado.
E no fundo da ausência,
uma risada que não morre,
porque cada alma que se apaga
lhe acende o fogo.

Ler poema completo

Poemas

3

Nó e Abismo

O peso de existir já costurava minha pele com linhas de vento,
e o laço do silêncio apertava o pescoço da alma.
Não era corda, era destino trançado,
um elo final com o invisível.
Na travessia, o que se abre não é porta,
mas um espelho que se nega a refletir.

Assisti ao meu próprio desaparecimento,
como se a sombra tivesse engolido a carne.
E ainda assim, o fim não era o fim,
era um degrau que escorria das nuvens
até um céu cinzento que não lembrava o paraíso.

Vi uma escada sem cor,
erguida entre os ecos e os relâmpagos do espírito.
Do outro lado, duas presenças imóveis,
uma vestida de luz que não aquecia,
outra escondida no contorno do escuro.
Ambas me observavam, mas nenhuma me dizia o nome.

Formou-se ali um tribunal sem paredes,
onde os veredictos não são falados, apenas sentidos.
Não carregava sangue em minhas mãos,
mas também não restava flor em meu peito.
A sentença era névoa,
A redenção, um cristal rachado pela dúvida.
Seria o alto um oásis?

Seria o abismo, apenas o eco de mim?
A resposta dormia nas mãos invisíveis que me pesavam.
A luz calou-se.
A sombra sorriu.

Ali, compreendi:
o que termina sem entrega, recomeça sem escolha.
O fio que rompi não era só meu,
era tecido com vozes que ainda me chamavam.

O destino decidiu.
A ilusão caiu.
Não havia juízo, apenas joguete.

A luz era ausência.
A sombra, dono do jogo.

Sem festa.
Sem retorno.
Apenas pedra, brasa e espelho quebrado.
E no fundo da ausência,
uma risada que não morre,
porque cada alma que se apaga
lhe acende o fogo.

103

Desperto

Mas quem é esse que desperta?
Num espaço que nega nome, cor ou tempo.
A consciência me atravessa incerta,
como se pensar já fosse contratempo.

Não respiro; não porque faltem ventos,
mas porque o ar já não reconhece pulmões.
Sou presença sem centro, sem fundamentos.
Um vestígio de ideias, sem razões.

As mãos? Vagas formas do que fui.
Translúcidas; não de luz, mas de ausência.
Percebo, com um susto que não flui,
que a existência é puro véu de aparência.

Saio ou sonho sair? E o mundo cala.
Não há causa, nem ordem, nem direção.
Tudo é neutro, e a própria dor se embala
numa inércia que finge ser compaixão.

Morto? Talvez. Mas o que é morrer
se eu nunca soube o que é ser?
Um reflexo etéreo vem me perceber:
talvez eu seja o enigma que me mato.

Promete revelar-me o fim e a essência,
mas sua voz soa como o próprio abismo.
Pois qual verdade há, se não há presença?
E o eterno, senão um cíclico ceticismo?

96

Em tudo penso

Em tudo me perco
o pensamento é vasto, mas o ser, finito.
Ideias colidem no abismo do eu,
ecoando em câmaras vazias
de uma mente sem morada possível.

Sou mais pensamento do que carne,
e nisso reside a minha danação.
O corpo implora movimento,
mas a alma tropeça em corredores que dobram sobre si.

O tempo me atravessa sem piedade,
e eu, suspenso entre o que sou e o que temo ser,
me dissolvo em inércia sutil,
enquanto o mundo gira sem mim.

A noite não dorme, vela comigo.
Meu quarto é templo e cárcere,
onde o silêncio pesa como eternidade,
e o simples viver é um fardo pensado demais.

Acordo já pensante,
e durmo ainda consciente
de que pensar é sangrar devagar,
é contemplar o abismo com olhos abertos.

Café me costura ao concreto,
Whisky me dissipa em névoa.
E nesse vaivém entre lucidez e torpor,
pergunto:
o que é real, senão o que me escapa?

A fome não é do corpo,
mas da alma faminta de sentido.
Ficar ou partir? Viver ou cessar?
Estar aqui ou em nenhum lugar?

A morte sussurra como promessa de quietude,
mas há culpa em desejar o silêncio absoluto.
Escrever é meu gesto de resistência,
mas cada palavra pesa como pedra.

Neste mundo onde poucos ousam sentir,
pensar tornou-se heresia
e eu sou o herege contemplativo,
o solitário que ama a dúvida.

Pois pensar é morrer aos poucos,
e eu, que penso demais,
já não sei se sou,
ou se apenas evaporam em mim os contornos do que fui.

97

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.