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Mundos à beira do abismo.

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Total de poemas: 3 Página 1 de 1

Desperto

Mas quem é esse que desperta?
Num espaço que nega nome, cor ou tempo.
A consciência me atravessa incerta,
como se pensar já fosse contratempo.

Não respiro; não porque faltem ventos,
mas porque o ar já não reconhece pulmões.
Sou presença sem centro, sem fundamentos.
Um vestígio de ideias, sem razões.

As mãos? Vagas formas do que fui.
Translúcidas; não de luz, mas de ausência.
Percebo, com um susto que não flui,
que a existência é puro véu de aparência.

Saio ou sonho sair? E o mundo cala.
Não há causa, nem ordem, nem direção.
Tudo é neutro, e a própria dor se embala
numa inércia que finge ser compaixão.

Morto? Talvez. Mas o que é morrer
se eu nunca soube o que é ser?
Um reflexo etéreo vem me perceber:
talvez eu seja o enigma que me mato.

Promete revelar-me o fim e a essência,
mas sua voz soa como o próprio abismo.
Pois qual verdade há, se não há presença?
E o eterno, senão um cíclico ceticismo?

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Em tudo penso

Em tudo me perco
o pensamento é vasto, mas o ser, finito.
Ideias colidem no abismo do eu,
ecoando em câmaras vazias
de uma mente sem morada possível.

Sou mais pensamento do que carne,
e nisso reside a minha danação.
O corpo implora movimento,
mas a alma tropeça em corredores que dobram sobre si.

O tempo me atravessa sem piedade,
e eu, suspenso entre o que sou e o que temo ser,
me dissolvo em inércia sutil,
enquanto o mundo gira sem mim.

A noite não dorme, vela comigo.
Meu quarto é templo e cárcere,
onde o silêncio pesa como eternidade,
e o simples viver é um fardo pensado demais.

Acordo já pensante,
e durmo ainda consciente
de que pensar é sangrar devagar,
é contemplar o abismo com olhos abertos.

Café me costura ao concreto,
Whisky me dissipa em névoa.
E nesse vaivém entre lucidez e torpor,
pergunto:
o que é real, senão o que me escapa?

A fome não é do corpo,
mas da alma faminta de sentido.
Ficar ou partir? Viver ou cessar?
Estar aqui ou em nenhum lugar?

A morte sussurra como promessa de quietude,
mas há culpa em desejar o silêncio absoluto.
Escrever é meu gesto de resistência,
mas cada palavra pesa como pedra.

Neste mundo onde poucos ousam sentir,
pensar tornou-se heresia
e eu sou o herege contemplativo,
o solitário que ama a dúvida.

Pois pensar é morrer aos poucos,
e eu, que penso demais,
já não sei se sou,
ou se apenas evaporam em mim os contornos do que fui.

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Nó e Abismo

O peso de existir já costurava minha pele com linhas de vento,
e o laço do silêncio apertava o pescoço da alma.
Não era corda, era destino trançado,
um elo final com o invisível.
Na travessia, o que se abre não é porta,
mas um espelho que se nega a refletir.

Assisti ao meu próprio desaparecimento,
como se a sombra tivesse engolido a carne.
E ainda assim, o fim não era o fim,
era um degrau que escorria das nuvens
até um céu cinzento que não lembrava o paraíso.

Vi uma escada sem cor,
erguida entre os ecos e os relâmpagos do espírito.
Do outro lado, duas presenças imóveis,
uma vestida de luz que não aquecia,
outra escondida no contorno do escuro.
Ambas me observavam, mas nenhuma me dizia o nome.

Formou-se ali um tribunal sem paredes,
onde os veredictos não são falados, apenas sentidos.
Não carregava sangue em minhas mãos,
mas também não restava flor em meu peito.
A sentença era névoa,
A redenção, um cristal rachado pela dúvida.
Seria o alto um oásis?

Seria o abismo, apenas o eco de mim?
A resposta dormia nas mãos invisíveis que me pesavam.
A luz calou-se.
A sombra sorriu.

Ali, compreendi:
o que termina sem entrega, recomeça sem escolha.
O fio que rompi não era só meu,
era tecido com vozes que ainda me chamavam.

O destino decidiu.
A ilusão caiu.
Não havia juízo, apenas joguete.

A luz era ausência.
A sombra, dono do jogo.

Sem festa.
Sem retorno.
Apenas pedra, brasa e espelho quebrado.
E no fundo da ausência,
uma risada que não morre,
porque cada alma que se apaga
lhe acende o fogo.

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