Lista de Poemas

Cotidiano

Um alto edifício foi erguido
No terreno baldio
Onde
Na minha infância
Brincava de pega-pega

Agora
No pedaço de concreto
Brinco de polícia e ladrão.

Murillo Kollek

Do livro: Tempos Perplexos, 2002 Ed. PMD
👁️ 105

A beira do cais

A beira do cais
Contrabando de corações
Corpos em leilão
Mercadoria em alta
Sutileza
Sentimento ilegal
Vendedores perambulam
Encomendas chegam
Viciados ao amanhecer
Matéria lapidada sai
Livre acesso de êxtase
Espada de dois gumes
Palavra jurídica
No peito do poeta

Murillo Kollek

Do livro: Augustus: Cotidiano e Urbanidade, Ed. Celta - 2009
👁️ 95

Parabólica

Trocamos nossas casas de barro
Por armações de concreto
Antes
Não tínhamos vergonha
Éramos nus.

Agora
Temos parabólica!

Usamos roupas de grife
Calçamos nossos pés com mizuno

Arcos e flechas
Portamos como enfeite
Usamos AR-15, Uzis e pistolas automáticas.

Antes tínhamos o cachimbo da paz
Hoje somos suicidas!
 
Murillo Kollek

Do livro: Tempos Perplexos, 2002 Ed. PMD
👁️ 68

Sobrou Apenas A Dignidade

Se há algo a declarar
diga somente o essencial
meu tempo é curto
tenho tantas coisas a fazer.

Teus livros guardarei na caixa
os discos separados por categoria
apenas peguei os discos e livros preferidos
aos quais já me pertenciam.

Os cães e gatos sentem sua falta
não querem comer a ração
sobrou apenas a dignidade
guardada na poeira da estante.

Tuas flores que mandei
no dia do nosso casamento, morreram.
Recuso-me a tirá-las do vaso
o mau cheiro exala a sala
e a televisão está ligada há horas.

Perdi a noção do tempo
dias e noites meus olhos avermelhados
pela bebida forte e o cheiro da cocaína.

Não quero te culpar por nada
sou o único culpado
sobrou apenas a dignidade
enrolada na colcha de retalhos.

Murillo Kollek
👁️ 110

Comentários (0)

Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments