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FACÍNORA

Facínora 

                                                    Conto

                                                        Autora: Joice Lara Amorim Knoop 

                                                    Parte I 

 

Naquele dia, tudo parecia normal, mas alguma coisa a  deixara pensativa, talvez fosse o silêncio. Lá fora as árvores sentiam a força do vento, o sol se escondera, não havia ninguém na rua. O deserto confirmava a suspeita. Todos desapareceram. Qual seria o motivo dessa inércia? Não sei. Ninguém poderia saber. Em meados de 1996, aquela garotinha chorava, chorava muito. A mãe entrava em desespero, não sabia o que fazer. Será que a menina estava doente ou apenas com fome? Eram tempos difíceis, angustiantes o caos estava passeando ao lado, atormentando aquela pequena vila. Não poderiam permanecer ali, a cada dia tinham a notícia que alguém perdera a batalha para a morte. E lá novamente passavam aquelas pessoas vestidas de preto, levando a tristeza impregnada ao corpo. Aquela mulher não aguentava mais ver a filha chorar e ficar sem fazer nada. A luz da vela apagou-se, não tinha outra saída, ela deveria fazer alguma coisa. Nesse momento organizava alguns pertences, embrulhados de qualquer jeito.  Via-se pela estrada, na noite aquela mulher com alguns embrulhos e sua pequena ao colo, distanciava-se.  No momento certo, notícias corriam ao vento que a peste foi implacável, dizimou a vila. Eram dias diferentes, rostos novos pela estrada. Ali as pessoas pareciam felizes, a dor, o sentimento de impotência  não faziam parte da vida dessas pessoas. Era um bom lugar para fazer morada, mas ainda não tinha onde ficar. Avistou um banco, sentou-se, alimentou aquele pequeno ser, ainda tinha um pedaço de pão e um pouco de água. De qualquer maneira, estava mais tranquila, mesmo sem saber o que iria fazer. Ela não tinha ideia do que fazer. Onde iria dormir, trazia consigo um semblante de sofrimento. À noite chegava vagarosamente, o cansaço, a fome incomodava, mas ao ver a pequena tranquila, deixava-a imensamente feliz. Os dias passaram, já estava alojada em um pequeno cubículo, trabalhava cuidando de um casal de idosos. Fazia todo o serviço da casa e à noite adentrava aquele espaço pequeno, ali brincava com sua pequena, e espiava a vida acontecer pela janela. Pessoas na praça, crianças correndo felizes, avistava ao longe uma pequena capela, modesta, mas muito bonita. No dia seguinte, iria visitá-la, era devota de nossa Senhora de Aparecida. Lembrava quando pequena, aos pés do leito de morte de sua mãezinha, agarrou-se  fortemente a imagem da santa, quando sua mãezinha despedia-se da vida. Algo quebrou o silêncio, uma voz rouca e fraca a chamava. Uma senhora de cabelos cor de neve, parecia desesperada, pedia ajuda: Por favor, me ajuda!! Ele não está bem. Ajuda-me! Ela abriu a porta rapidamente, correu para o quarto da senhora, e lá avistou o senhor quase imóvel na cama. Não acreditava no que vira seu olhos, mas novamente estava presenciando o caos. Sim. O caos a perseguia. A morte novamente rondava o lugar onde estava. E agora, o que fazer? Seria ela e sua pequena a causa dessa dor? A notícia tão temida chegou, o médico olha para aquela senhora de cabelos cor de neve e simplesmente diz: ele não resistiu e veio a falecer. Nesse momento, a mulher abraça aquele pequeno ser, tão frágil. Ela teve certeza que era a causadora dessa dor. Os dias passaram,  a senhora estava fraca, não tinha forças para sair da cama. Ali, após alguns dias foi encontrada pela manhã sem vida. A mulher espiava novamente pela janela e lá fora só avistava o sofrimento. Não teve dúvidas, o caos, a pandemia havia se alastrado novamente.

                                              Fim
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