Lista de Poemas

Ausência

AMAR é não renunciar ao que está certo,
UNS desistem pois temerosos estremecem,
AOS desejos que sentem, de peito desperto,
OUTROS mais seguros e pensados acrescem.
PREZA mal quem de excesso nulo se alimenta,
O prazer devassando e alguém magoando,
TEU consorte iludindo por sede opulenta,
PRÓXIMO de ti somente a luz rareando.
O amor, através da claridade, ressurge,
SOL que revolve e pelo brilho as trevas cala,
TURVA-SE o degredo por onde a cor não urge,
NA paisagem mais clara descobre-se a alma:
SUA forma sem luxúrias nem receios,
AUSÊNCIA de ambições que ensombrem anseios.
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Jardins de Lisboa

Passeiam amantes pelos jardins
onde Lisboa de verde se vestiu,
eles planeiam discretos festins
para o adultério que floriu.

Observam a magnífica cidade,
as colinas quase multiplicadas,
à luz da paisagem a lealdade
das almas infieis e apaixonadas.

Consorte secreta deste casal
que se uniu sem lei convencional,
Lisboa abençoa o desejo livre.

Ao vosso abraço de intocável cor
apenas se insinua, sedutor,
o azul do Tejo que no longe vive.
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Coroação de cupidos

Vivemos em fértil escravidão,
deixando um rasto de poemas mortos
no espaço onde tombou a solidão
dos nossos sonhos e dos nossos corpos.

Escutamos o som de um céu proscrito
a cair sem sentido sobre nós,
parece que o sangue lento de um grito
se esvái da voz de uma ferida atroz.

Coroamos cupidos com a morte
num altar de arquitectura sinistra,
bordada por uma abóboda torpe.

Ao vazio feito de luz desmanchada,
oferecemos de forma imprevista
o que definha depois da alvorada.
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Olhos de fogo fingidos

OLHOS plurais de um rosto singular,
DE traço púdico e trejeito ardente,
FOGO feito por gesto bipolar,
FINGIDOS ficam se olhados de frente.
TOCAM o centro da melancolia,
A sua carne que é treva dobrada,
NOITE contorcida, penumbra esguia,
ANINHADA na foz da madrugada.
ENTRE homilias ternas, clandestinas,
OS anseios crescem, são corpos crentes,
AMANTES de orações quase divinas.
Eles seguem-nos, furtivos, urgentes,
fulguram nos olhares que trocamos
quando em segredo nos encontramos.
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ÁRVORES CADENTES

O pai acompanhava-te em passeio
por um carreiro de árvores cadentes,
refúgio que não toldava o receio,
lugar onde vão parar os poentes.

Conseguia dizer-te que fermentos
forjam nas memórias o reduto
para onde se escoam os pensamentos,
num ritmo irreversível, absoluto.

Conseguia dizer-te as trovoadas
que destroem com lentidão o corpo,
que tornam difíceis as alvoradas
e fazem demorar o olhar absorto,
conseguia dizer-te com brandura
como invocar a saudade futura.
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ÁRVORES CADENTES

O pai acompanhava-te em passeio
por um carreiro de árvores cadentes,
refúgio que não toldava o receio,
lugar onde vão parar os poentes.

Conseguia dizer-te que fermentos
forjam nas memórias o reduto
para onde se escoam os pensamentos,
num ritmo irreversível, absoluto.

Conseguia dizer-te as trovoadas
que destroem com lentidão o corpo,
que tornam difíceis as alvoradas
e fazem demorar o olhar absorto,
conseguia dizer-te com brandura
como invocar a saudade futura.
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Herberto Helder

Também a morte intercepta o poeta
e tolda-lhe a voz de vasto profeta,
sobrevivem os versos abundantes,
filhos aúreos dos férteis amantes
que foram Herberto e a poesia,
casal que, em vertigem, se consumia
num abraço de cosmos incessante,
criando o universo a cada instante

Num rodopio de harpas verdejantes
fechaste o poema invicto, viral,
o fluxo de palavras fulgurantes
calafetadas com um corpo astral,
deixaste de ser o pródigo intruso
que roubava liras ao céu difuso.
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Instante


Aqueles olhos podiam ter sido
as sementes de um amor importante,
mas o agoiro por eles prometido
perdurou somente por um instante.
Permitiu o acaso que a vislumbrasse
em evento efémero do destino,
de um outro futuro encontrei a face,
símbolo vindouro desvanecido.
O tempo, com diversos argumentos,
tenta negar-te mas dele discordo,
ainda te penso, ainda te recordo,
na memória sobejam os fragmentos
desse dia que, sem qualquer razão,
ficou num recanto do coração.
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Ao ficares no passado

 Ao ficares no passado,
 no fosso do que foi perdido,
 essa reentrância escavada
 por algozes minúsculos
 mas persistentes,
 pertences a uma peça de teatro
 onde os espíritos se acumulam
 por entre adereços adiados,
 estás num palco e contracenas
 com actores putrefactos.
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