Lista de Poemas
SONHO DE AVE
Todo o sonho de ave é voar,
vestir-se de nuvens e embriagar-se de céu.
Mas, por vezes, esse voo
é como a água que se evapora
para regressar em gotas de chuva!
Só as aves adultas
sabem que a felicidade não está nos céus...
mas sim, numa gaiola de portas abertas,
em que se é prisioneira por vontade!
In: Para Ti
SILÊNCIO QUE ME ABRAÇA
Só quando fiquei só
o silêncio me abraçou.
Só quando fiquei só
iniciei uma conversa comigo mesmo
e descobri que tinha saudades minhas.
Gosto do silêncio que me abraça
da mesma forma que gostei de me reencontrar.
Agora tenho ciúmes de mim próprio.
Não me quero perder para ninguém.
Só voltarei a abrir a porta
a alguém que converse comigo
sem me quebrar o silêncio
sem me roubar de mim.
IN: Para Ti
A ÁRVORE DOS PEIXES
Contigo nascem peixes nas árvores
e não estranho
porque contigo
o mundo
não tem nada a ver
com o mundo que eu conheço...
Comemos um peixe negro
debaixo da árvore em que nasceu,
descascamo-lo como se fosse fruta
mas sabemos que é um peixe
filho de uma árvore.
No meu mundo
as árvores não são mares
e não dão peixes,
mas esse é o meu mundo.
Quando estou contigo
o mundo é diferente
e há barcos na folhagem das árvores
à sombra das quais comemos peixe
acabadinho de colher.
Se fosse para o mundo ser igual
sempre igual
eu não estava contigo.
Até podia ser feliz na mesma
num mundo de árvores
que dão frutos e não peixes
mas seria feliz sozinho
e eu estou encantado
de estar a teu lado
e comer peixe com as mãos
No nosso mundo somos felizes
mesmo quando toco a tua pele
com os dedos sujos de peixe
porque ao fim da tarde
subimos o tronco
e tomamos banho nus
na copa da árvore.
O mundo é tão diferentemente belo
quando estou contigo...
e acho que isso explicaria a razão
porque estou contigo
se outras razões melhores não tivesse!
Afinal, é simples o nosso segredo!
Agora, vem, vem sem medo,
vamos ao mar,
vamos ao fundo do mar de mão dada
pescar juntos frutas na madrugada!
IN: Para Ti
Sombras
Não estavas quando cheguei a casa.
Nem eu estava quando chegaste junto a mim.
Não estávamos em casa quando jantámos juntos.
Quando me falaste não estava.
Nem estavas quando eu te respondi.
Não estiveste ao meu lado
quando te deitaste junto a mim
e eu senti o toque do teu corpo ausente.
Fomos sombras.
Sombras de gente, nada mais.
Não estivemos nem aqui nem ali.
Nem tu comigo,
nem eu contigo.
Solitários sem voz
eu, tu...
fomos apenas sombras de nós
IN: Para Ti
Silêncio
Há o silêncio dos que se encontram.
Há o silêncio dos que se afastam
Não, por favor, nada digas...
Se chegas, não preciso de palavras...
Se partes...
de que me servem as palavras?
IN: Para Ti
PALAVRAS
Lembras-te? Já fomos
palavras distantes!
Depois,
descobrimos que as palavras quase rimavam.
desejo, beijo...
Lembras-te? Fomos então
palavras ... próximas!
Mais tarde,
as palavras já rimavam mesmo
e conjugavam verbos a duas vozes
desejar, amar...
Lembras-te? Tornámo-nos
palavras-unidas!
Com o tempo,
a emoção baralhava os sentidos
- tu e eu significavam o mesmo...
Lembras-te? Éramos um só corpo de
palavrassobrepostas!
Contudo,
nem sempre as palavras
se encontram na mesma linha.
Lembras-te? Sem saber bem porquê...
aos poucos, com os dias, tornámo-nos
palavras
desalinhadas!
Com o tempo,
a emoção continuou a baralhar a escrita
e as palavras deixaram de rimar:
amor, desilusão, desalento, tristeza,...
Lembras-te? Foi quando nos tornámos
palavras antagónicas!
IN: Para Ti
O Pássaro do Chão
O Bailarino é um pássaro do chão, como outros são do céu.
São a inveja das árvores que não voam
a inveja das pedras com musgo
dos pesados Homens que não dançam.
Quem te ensinou a voar?
Foi a magia do vento?
Foi o vento que te ensinou a ser folha bailadeira em vez de árvore?
A ser poeira malabarista em vez de pedra?
A ser artista e a altear os pés sem estar preso?
A recolher as raízes, a vomitar o peso?
O Bailarino é um pássaro do chão, como outros são do céu.
O seu corpo é uma recta onde cabem todas as curvas de um véu.
Feito de ar, nervos d'aço, é fio-de-prumo aberto em compasso.
Quem te ensinou a voar?
Foi o milagre dos deuses?
Foram os deuses que te ensinaram a intensidade e a leveza?
O brilho dos reflexos, a elegância da espuma?
O enlaçar da poesia e das emoções uma a uma, uma a uma?
O Bailarino é um pássaro do chão, como outros são do céu.
Quem te ensinou a voar?
- Aprendi na dor...!
Sim, o Bailarino é um pássaro
as suas asas são da dimensão da dor
um pássaro moldado em rasgado movimento
que se repete, se repete, se repete...
quantas vezes? - setenta vezes sete
até que reste um corpo alquebrado
maltratado, castigado, torturado
e se abra um sulco de arado na alma...
- Sem direito ao céu, o Bailarino é um pássaro bastardo
que sem magias nem milagres aprende a voar em contraluz
deixando o sangue no estrado onde apenas o suor reluz!
- Ahhh... mas quando dança...
quando dança é pássaro por inteiro
esquece a mágoa e o sofrimento
desliza como água, é música em movimento
ganha asas, ganha vento, ganha os ares a sonhar
abre em arco os seus braços, risca lume no ar
e em pose de conquistador, rei d'aquém e d'além dor
vai onde o corpo alcança
e é num segundo
senhor do mundo
num subtil passo de dança!
IN: CNB E OS POETAS
© João Morgado para a CNB
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