Friedrich Hölderlin

Friedrich Hölderlin

1770–1843 · viveu 73 anos DE DE

Friedrich Hölderlin foi um dos mais importantes poetas do Romantismo alemão. A sua obra, profundamente marcada pela influência da Grécia Antiga e pela busca de um ideal estético e espiritual, é caracterizada por uma linguagem elevada e musical. As suas reflexões sobre a natureza, a pátria e o destino humano, frequentemente expressas em odes e hinos, revelam uma profunda melancolia e uma busca incessante pela harmonia perdida. A sua vida foi marcada por um colapso mental que o afastou da atividade literária nas últimas décadas da sua existência.

n. 1770-03-20, Lauffen · m. 1843-06-07, Tubinga

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NUM SÓ MOVIMENTO

Perco-me nas encruzilhadas do teu corpo
Nas tuas suaves mas perigosas curvas
Deslizo pelos teus cabelos estrelados
Pela carnes húmidas de teus lábios
Em teus quadris sedosos
Numa saborosa degustação
E detenho-me no calor dessa tentação
No encontro do teu centro de deleite
Tacteio-oBeijas-me o pescoço
Ouve-se um gemido
Tua língua pelo ouvido
Teu corpo em colisão com meu
Num repentino e possante movimento
Pele na pele
De poros protuberantes
Enrolas as pernas
No meu corpo
Entro em ti
Tu por mim
As gotas do suor quente
Escorregam entre nós
Copulados somos um
Uma só forma
Num só movimento



Miguel Carvalhais Gama
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Biografia

Identificação e contexto básico

Friedrich Hölderlin (nome completo: Johann Christian Friedrich Hölderlin) foi um poeta e filósofo alemão, considerado uma das figuras centrais do Romantismo e um precursor da poesia moderna. Nasceu em Lauffen am Neckar, no Ducado de Württemberg, e faleceu em Tübingen. A sua obra poética, embora reconhecida tardiamente, exerceu uma influência profunda na literatura alemã e ocidental, explorando temas como a beleza, a natureza, a divindade, o destino humano e a busca pela harmonia em tempos de fragmentação.

Infância e formação

Nascido numa família de classe média alta, Hölderlin teve uma infância marcada pela perda precoce do pai. Recebeu uma educação esmerada, primeiro na escola latina de Denkendorf e depois no seminário protestante de Maulbronn, onde estudou teologia e filosofia. Foi nesse período que desenvolveu um profundo interesse pela Antiguidade Clássica, especialmente pela poesia grega, e pelas ideias filosóficas de Kant e Fichte. A amizade com os futuros pensadores Hegel e Schelling foi fundamental para a sua formação intelectual, com quem partilhou ideais sobre a razão, a arte e a busca por uma nova ordem espiritual.

Percurso literário

O início da sua atividade literária deu-se ainda durante os seus estudos, com a composição de poemas líricos e a tradução de obras clássicas. A sua obra evoluiu de formas mais tradicionais, inspiradas nos modelos gregos e latinos, para uma maior liberdade formal e expressiva, especialmente nas suas odes e hinos. Publicou as suas primeiras obras importantes, como "Hyperions Schicksalslied" e o romance "Hyperion", que refletem as suas inquietudes existenciais e políticas. Tentou, sem sucesso, encontrar uma carreira académica, trabalhando brevemente como tutor.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Hölderlin incluem "Páginas de Hiperión", "O Canto do Destino de Hiperión", e uma vasta coleção de poemas, odes e hinos, como "O Rio", "O Velho Tempo" e "Metanoeite". Os temas dominantes são a beleza idealizada da Grécia Antiga, a natureza como manifestação do divino, a dualidade entre o sagrado e o profano, a busca por uma harmonia perdida e a meditação sobre o destino da Alemanha e da Europa. Em termos de forma, Hölderlin experimentou com o verso livre, mas também utilizou formas mais clássicas, como o soneto, com grande mestria. O seu estilo é caracterizado por uma linguagem elevada, musicalidade intensa, imagens ricas e uma profunda carga simbólica. A sua voz poética é frequentemente elegíaca, melancólica e, por vezes, profética, expressando a dor da fragmentação e a ânsia pela totalidade.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Hölderlin viveu num período de intensas transformações na Europa, marcado pela Revolução Francesa e pelas guerras napoleónicas, que tiveram um impacto significativo nas suas reflexões sobre a liberdade, a política e o destino dos povos. Pertenceu à "geração de Jena" do Romantismo alemão, um movimento que buscava conciliar a razão com a emoção, a ciência com a arte, e a tradição com a modernidade. Manteve relações com importantes figuras intelectuais da época, como Goethe, Schiller e os seus amigos Hegel e Schelling. A sua obra reflete as tensões entre o idealismo filosófico e a dura realidade histórica.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Hölderlin foi marcada por uma sensibilidade exacerbada e por relacionamentos afetivos intensos, mas também por dificuldades financeiras e pela instabilidade emocional. A sua paixão por Susette Gontard, a esposa do seu empregador em Frankfurt, inspirou muitos dos seus poemas de amor e é considerada uma influência importante na sua obra. A sua saúde mental deteriorou-se progressivamente, culminando num colapso nervoso que o levou a viver os últimos trinta e seis anos da sua vida numa torre em Tübingen, sob os cuidados de uma família.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento da obra de Hölderlin foi, em grande parte, póstumo. Durante a sua vida, a sua poesia, considerada por muitos como excessivamente abstrata e hermética, teve uma receção limitada. Foi apenas no final do século XIX e início do século XX que a sua obra foi redescoberta e valorizada, influenciando gerações posteriores de poetas e pensadores, como Rilke, Heidegger e os poetas do Grupo de Tübingen. Hoje, é universalmente reconhecido como um dos maiores poetas da língua alemã.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Hölderlin foi profundamente influenciado pela poesia grega antiga, pelos filósofos Platão e Kant, e pela literatura clássica. O seu legado é imenso, tendo influenciado poetas de diversas nacionalidades e movimentos literários. A sua exploração da relação entre o homem, a natureza e o divino, a sua busca pela beleza e pela harmonia, e a sua capacidade de expressar a angústia existencial com uma linguagem sublime, continuam a ressoar na poesia contemporânea. O seu pensamento filosófico, especialmente a sua reflexão sobre a linguagem e a experiência do sagrado, também foi objeto de estudo por parte de filósofos como Martin Heidegger.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Hölderlin tem sido objeto de inúmeras interpretações críticas, que vão desde leituras profundamente filosóficas, focadas na sua metafísica da beleza e do ser, até análises sobre a sua relação com a política e a história. A sua "visão da Grécia" é frequentemente analisada como um ideal perdido e uma fonte de inspiração para a busca de uma unidade perdida no mundo moderno. A tensão entre o ideal e o real, o sagrado e o profano, o céu e a terra, são temas centrais na análise crítica da sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Apesar de ter vivido os seus últimos anos numa condição de demência, Hölderlin continuou a escrever versos e a recitar poemas até ao fim. Os seus guardiões permitiam-lhe ter papel e pena, e ele continuou a escrever com uma caligrafia peculiar, muitas vezes ilegível. Um aspeto curioso é a sua fixação com a palavra "heil" (sagrado, santo, curado), que aparece repetidamente nos seus últimos escritos, sugerindo uma persistente busca espiritual.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Friedrich Hölderlin faleceu em Tübingen, em 7 de junho de 1843, aos 73 anos de idade. As suas obras completas foram publicadas em várias edições, tanto em vida como postumamente, contribuindo para a sua crescente influência e reconhecimento. A sua casa em Lauffen am Neckar e o seu quarto na torre em Tübingen tornaram-se locais de peregrinação para amantes da sua obra e estudantes de literatura.

Poemas

9

Pranto

de Ménon por Diotima
 

2
De nada serve, ó deuses da morte, enquanto tiverdes
Em vosso poder, prisioneiro,o homem acossado pelo destino,
Enquanto, no vosso furor, o tiverdes lançado na noite tenebrosa,
De nada serve então procurar-vos, suplicar-vos ou queixarmo-nos,
Ou viver pacientemente neste desterro de temor,
E escutar sorrindo o vosso canto sóbrio.
Se assim for, esquece a tua felicidade e dormita silenciosamente.
No entanto brota no teu peito uma réstea de esperança,
Tu ainda não podes, ó minha alma! Não podes ainda
Habituar-te e sonhas dentro de um sonho férreo!
Não estou em festa, mas gostaria de coroar-me de flores;
Não me encontro eu só? Mas algo apaziguador deve
Aproximar-se de mim vindo de longe e sou forçado a sorrir e a admirar-me
Por experimentar alegria no meio de tão grande sofrimento.

(tradução de Maria Teresa Furtado)

 

1 235

Ás parcas

Dai-me, Potestades, mais um verão apenas,
Apenas um outono de maduro canto,
Que de bom grado, o coração já farto
Do suave jogo, morrerei então.
.
A alma que em vida nunca desfrutou os seus
Direitos divinos nem no Orco acha repouso;
Mas se eu lograr o que é sagrado, o que
Trago em meu coração, a Poesia,
.
Serás bem-vinda então, paz do mundo das sombras!
Contente ficarei, mesmo que a minha lira
Não leve comigo; uma vez, ao menos,
Vivi como os deuses, e é quanto basta.

 

An die parzen
Nur Einen Sommer gönnt, ihr Gewaltigen!
Und einen Herbst zu reifem Gesange mir,
Daß williger mein Herz, vom süßen
Spiele gesättiget, dann mir sterbe.
.
Die Seele, der im Leben ihr göttlich Recht
Nicht ward, sie ruht auch drunten im Orkus nicht;
Doch ist mir einst das Heilige, das am
Herzen mir liegt, das Gedicht, gelungen,
.
Willkommen dann, o Stille der Schattenwelt!
Zufrieden bin ich, wenn auch mein Saitenspiel
Mich nicht hinabgeleitet; Einmal
Lebt ich, wie Götter, und mehr bedarfs nicht.


– Friedrich Hölderlin. “An die Parzen”/”Ás parcas”, [tradução José Paulo Paes]. in: in: HÖLDERLIN, Friedrich. Poemas. [seleção, tradução, introdução e notas José Paulo Paes]. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. p.87.

736

Curso da vida

Coisas maiores querias tu também, mas o amor
A todos vence, a dor curva ainda mais,
E não é em vão que o nosso círculo
Volta ao ponto donde veio!

Para cima ou para baixo! Não sopra em noite sagrada,
Onde a Natureza muda medita dias futuros,
Não domina no Orco mais torto
Um direito, uma justiça também?

Foi isso que aprendi. Pois nunca, como os mestres mortais,
Vós, ó celestiais, ó deuses que tudo mantendes,
Que eu saiba, nunca com cuidado
Me guiastes por caminho plano.

Tudo experimente o homem, dizem os deuses,
Que ele, alimentado com forte mantença, aprenda a ser grato por tudo,
E compreenda a liberdade
De partir para onde queira.

 

Lebenslauf
Größers wolltest auch du, aber die Liebe zwingt
All uns nieder, das Leid beuget gewaltiger,
Doch es kehret umsonst nicht
Unser Bogen, woher er kommt.
Aufwärts oder hinab! herrschet in heilger Nacht,
Wo die stumme Natur werdende Tage sinnt,
Herrscht im schiefesten Orkus
Nicht ein Grades, ein Recht noch auch ?
.
Dies erfuhr ich. Denn nie, sterblichen Meistern gleich,
Habt ihr Himmlischen, ihr Alleserhaltenden,
Daß ich wüßte, mit Vorsicht
Mich des ebenen Pfades geführt.
.
Alles prüfe der Mensch, sagen die Himmlischen,
Daß er, kräftig genährt, danken für Alles lern,
Und verstehe die Freiheit,
Aufzubrechen, wohin er will.
 

– Friedrich Hölderlin. “Lebenslauf”/”Curso da vida”. in: Hölderlin: Poemas. (organização e tradução Paulo Quintela). Coimbra: Atlântida, 1959.
 

630

Empédocles

Buscas a vida, buscas, e eis te brota e brilha
Um fogo divino do fundo da terra,
E tu, em ânsia horrífica, lanças-te
Lá para baixo, pra as chamas do Etna.

Assim dissolveu pérolas no vinho a insolência
Da rainha; e que o fizesse! Não tivesses tu,
Ó Poeta, imolado a tua riqueza
No cálice refervente!

Mas pra mim és sagrado, como a força da terra
Que te arrebatou, ó vítima ousada!
E seguiria para as profundezas,
Se o amor me não detivesse, o herói.

 

Empedokles
Das Leben suchst du, suchst, und es quillt und glänzt
Ein göttlich Feuer tief aus der Erde dir,
Und du in schauderndem Verlangen
Wirfst dich hinab, in des Ätna Flammen.
.
So schmelzt’ im Weine Perlen der Übermut
Der Königin; und mochte sie doch! hättest du
Nur deinen Reichtum nicht, o Dichter,
Hin in den gärenden Kelch geopfert!
.
Doch heilig bist du mir, wie der Erde Macht,
Die dich hinwegnahm, kühner Getöteter!
Und folgen möcht ich in die Tiefe,
Hielte die Liebe mich nicht, dem Helden.
 

– Friedrich Hölderlin. “Empedokles”/”Empédocles”. in: Hölderlin: Poemas. (organização e tradução Paulo Quintela). Coimbra: Atlântida, 1959.

690

Metade da vida

Peras amarelas
E rosas silvestres
Da paisagem sobre a Lagoa.
Ó cisnes graciosos,
Bêbedos de beijos,
Enfiando a cabeça
Na água santa e sóbria!

Ai de mim, aonde, se
É inverno agora, achar as
Flores? E aonde
O calor do sol
E a sombra da terra?
Os muros avultam
Mudos e frios; à fria nortada
Rangem os cata-ventos.

 

Hälfte des lebens
Mit gelben Birnen hänget
Und voll mit wilden Rosen
Das Land in den See,
Ihr holden Schwäne,
Und trunken von Küssen
Tunkt ihr das Haupt
Ins heilignüchterne Wasser.

Weh mir, wo nehm ich, wenn
Es Winter ist, die Blumen, und wo
Den Sonnenschein,
Und Schatten der Erde?
Die Mauern stehn
Sprachlos und kalt, im Winde
Klirren die Fahnen.


– Friedrich Hölderlin. “Hälfte des Lebens”/”Metade da vida”, [tradução Manuel Bandeira]. in: BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966.

904

Diotima

Vem, dulçor da musa etérea — e para mim aplaca
O caos do tempo, ó tu, que outrora os elementos irmanaste,
Em tons de paz do céu me suaviza a fera luta,
Até que aos seios dos mortais se amaine a intriga,
Até que a suave, a ingente, a velha natureza dos humanos
Brote enfim do fermentar do tempo alegre e forte.
E que à viva forma voltes, da gente aos corações sedentos!
Voltes à mesa hospitaleira, e ao santuário voltes!
Pois que, do Espírito colmada, como em neve as flores finas,
Vive ainda e a remirar o sol está Diotima.
Mas foi-se deste mundo o sol do Espírito, o mais belo,
E em caliginosa treva raivam agora tão somente os furacões.

 

Diotima
Komm und besänftige mir, die du einst Elemente versöhntest,
Wonne der himmlischen Muse, das Chaos der Zeit,
Ordne den tobenden Kampf mit Friedenstönen des Himmels,
Bis in der sterblichen Brust sich das Entzweite vereint,
Bis der Menschen alte Natur, die ruhige, große,
Aus der gärenden Zeit mächtig und heiter sich hebt.
Kehr’ in die dürftigen Herzen des Volks, lebendige Schönheit!
Kehr’ an den gastlichen Tisch, kehr’ in den Tempel zurück!
Denn Diotima lebt, wie die zarten Blüten im Winter,
Reich an eigenem Geist, sucht sie die Sonne doch auch.
Aber die Sonne des Geists, die schönere Welt, ist hinunter
Und in frostiger Nacht zanken Orkane sich nur.


– Friedrich Hölderlin. “Diotima”. [tradução Antonio Medina Rodrigues]. In: Canto do destino e outros cantos. (Organização, tradução e ensaio por Antonio Medina Rodrigues). São Paulo: Ilulminuras, 1994.

787

O Arquipélago

(estrofes iniciais)

Tornam os grous de volta a ti, e buscam curso
Para tuas margens, de volta, os navios? respiram desejados
Ares em torno da maré pacificada, e ensolara o golfinho,
Atraído da profundeza, à nova luz, seu dorso?
Floresce a Jônia? é tempo? pois sempre que é primavera,
Quando aos viventes o coração renova-se e o primeiro
Amor desperta aos humanos e de tempos áureos a lembrança,
Venho a ti e te saúdo em tua quietude, Ancião!

Sempre, Poderoso, vives ainda e repousas à sombra
De tuas montanhas, como vivias; com braços de moço abraças
Ainda tua terra amável, e a de tuas filhas, Pai!
De tuas ilhas, ainda, as floridas - nenhuma está perdida.
Creta está aí, e verdeja Salamina, crepusculada de louros,
Circunflorida de raios; à hora do nascente eleva
Delos sua cabeça inspirada, e Tenos e Quios
Têm de frutos purpúreos quanto basta; de colinas bêbadas
Jorra a bebida de Chipre, e de Caláuria tombam
Ribeirões de prata, como outrora, nas velhas águas do Pai.

Vivem ainda todas elas, as mães de heróis, as ilhas,
Florindo de ano para ano, e se por vezes, do abismo
Desvencilhada, a flama da noite, a tempestade dos ínferos
Empolgou uma das belas, e essa moribunda se afundou em útero -
Oh Divino! tu aturaste - pois à flor das escuras
Profundezas, muita coisa já te nasceu e sucumbiu.
 

1 248

Pôr do sol

Onde estás? A alma anoitece-me bêbeda
De todas as tuas delícias; um momento
Escutei o sol, amorável adolescente,
Tirar da lira celeste as notas de ouro do seu canto da noite.

Ecoavam ao redor os bosques e as colinas;
Ele no entanto já ia longe, levando a luz
A gentes mais devotas
Que o honram ainda.

 

1 138

Lembrança

Sopra o nordeste,
O mais grato dos ventos:
Grato a mim porque é cálido, e aos marujos
Porque promete fácil travessia.
Eia, saúda agora
O formoso Garona
E os jardins de Bordéus
Lá coleia na íngreme ribeira
A vereda, e no rio
Se despenha o regato; mas acima
Olha o par generoso
De álamos e carvalhos.

Ainda me lembro bem e como
As largas copas curva
O olmedo sobre o moinho.
No pátio há uma figueira.
E nos dias feriados,
Pisando o chão sedoso
Passeiam mulheres morenas
No mês de março
Quanto o dia é igual à noite
E nos lentos caminhos
De áureos sonhos pejados
Sopram brisas embaladoras.

Mas estenda-me alguém,
Da escura luz repleto
O aromado copo
Para que eu possa descansar; pois doce
Seria o sono à sombra.
Também não fora bem
Privar-se de mortais
Pensamentos, que bom
É conversar; dizer
O que se sente, ouvir falar de amores,
De coisas passadas.

Porém que é dos amigos? Belarmino
E o companheiro? Muitos
Têm medo de ir à fonte.
É que a riqueza principia
No mar. Ora, eles
Reúnem como pintores
As belezas da terra e não desprezam
A alada guerra não,
Nem desdenham morar anos a fio
Sob o mastro sem folhas, onde à noite
Não há as luminárias da cidade,
Nem dança e música nativa.

Mas hoje aos Índios
Foram-se os homens,
Ali, na extremidade

Das montanhas cobertas de vinhas
Donde baixa o Dordonha,
Acaba o rio no Garona
Largo como o Oceano. Todavia
O mar toma e devolve a lembrança.
O amor também demora a olhar debalde.
O que perdura porém, fundam-no os poetas.

(Tradução de Manuel Bandeira)

 

1 241

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