Escritas

Biografia

Poeta andreense, autor de dois livros: Rascunhos de Um Vendaval e Falsas Estradas. Premiado no 54o FEMUP, Letrania 2020 e Prêmio Mountonée de Poesia (2023).

Falsas Estradas: https://www.editoraprimata.com/falsas-estradas-de-francisco-guilherme/p

Lista de Poemas

Total de poemas: 4 Página 1 de 1

A NOIVA INOCENTE

A noiva 

é a noite nova 

é o goivo 

o açoite da ova 


 

a noiva 

é a vala 

é a cova 

resvala 

na cobra 

dela se cobre 

revela 

a pele 

o elo 

o pelo


 

a noiva 

gos

ta

goz…


 

ahhhhhhhhhhhhhhh


 

a noiva

desfaz 

o véu 

prova 

do próprio 

veneno 

o mel

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CONTEMPLAÇÃO OBSCENA

O contato de dois corpos femininos 

sob o véu tênue da noite 

inaugura em mim certos espasmos 

e eu os lanço -como brancos dardos- 

sobre o linho.
 

Sobre o linho branco aqueles dois corpos 

não percebem que estou ausente dali,

contemplando-os sem qualquer intenção 

de possuí-los. 


 

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A MUSA FICOU INTRIGADA AO VER NUVENS NO CHÃO

De repente, a Musa

vê nuvens no chão

e pergunta aos céus 

o que aconteceu. 


 

Os céus respondem

alguém – não sabemos 

se anjo ou demônio- 

em louvor a ti, 

lançou ao chão 

essa pátina branca

que, condensada,

se fez em inúmeras 

nuvens” 


 

A Musa, ao ouvir

tal resposta dos céus,

encheu de pudor 

suas lindas faces. 


 

Os céus, ao verem

a reação da Musa,

lhe perguntaram:

por que tal pudor, 

se sabes que tua beleza

é capaz de fazer 

qualquer um tentar 

a mais obscena proeza?”


 

A Musa então respondeu:

geralmente me fazem versos 

e dizem meu nome 

entre a multidão 

e eu rio com satisfação 

mas ninguém nunca 

ousou derramar-se 

assim, como este 

que gerou essas nuvens 

tão lindas que vejo 

no chão!” 


 

E como te sentes?”

- os perguntaram os céus -


 

Desejada, porém intrigada.

Imagino que o autor 

da homenagem tanto preza 

a minha imagem

que não quis vê-la 

infeliz de decepção.

Acredito que ele saiba 

com toda a razão - 

que é incapaz

de prover-me 

completa satisfação” 

Respondeu a Musa,

sorrindo obscena. 


 

E prosseguiu: 

E, sabendo desta verdade - 

tal anjo ou demônio - 

gastou toda sua virilidade

em louvor a mim


 

E o que pretendes fazer agora?

-Perguntaram, curiosos, os céus. 


 

A Musa, despiu-se, sorriu, respondeu: 

Ao desconhecido anjo ou demônio, 

que me louvou com tanta devoção, 

darei a merecida retribuição:

ao meu próprio corpo, 

trarei um espasmo de satisfação” 


 

A Musa tratou logo 

de oferecer a si mesma o que prometeu.


 

Os céus 

se aproximaram dela

tentando envolvê-la, 

mas ela

- envolvida no propósito-

os rejeitou. 


 

E só lhes restou

a piedade da contemplação. 


 

Passaram-se muitas

inúmeras horas 

até a musa se saciar 

por completo,

e enfim, descansar.


 

Porém, no dia seguinte, 

ao acordar, a musa viu 

que o chão onde se deitava

novamente estava 

de nuvens repleto…


 

Agora ela não perguntou nada aos céus. 

Apenas repetiu o espasmo do dia anterior…


 

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FLORES DE CHUMBO

Uma primavera estranha, feita através
De flores de chumbo, se desenvolve
Ao redor dos jardins e cresce com eles.
Se trata de uma noite de muitos anos
Para a qual as respostas não costumam
Surgir de onde se espera, de onde
A esperança mais produz os seus pedaços;
Mas de alguma região do pesadelo
Que nos sufoca enquanto ousamos
Seguir pelo mesmo caminho, entre
Montanhas, entre moinhos, onde
Se derramam gotas pequenas, de ferro,
De ódio e de sobressaltos. Dormiremos
Entre peixes contaminados. Árvores
Que, ao invés de frutos, produzem
Enforcados. Estradas que, na verdade,
Nos levam para o abismo, em meio
Ao fétido outono desses viadutos;
Dutos altamente explosivos. Encima
Deles, vivas casas. Paisagem, miragem
Potencialmente perigosa. Sinos sombrios
No alto da capela. Sinais sombrios:
Poesia vetada, mar por onde bóiam
Cadáveres,baleias. Chuva profunda
Chuva ácida. Água podre. Água morta.
Urubus e águias. Inebriante cheiro
De um ventre. Vida oriunda de algum
Bueiro ou lodo. Vida, não se sabe
De que tipo ou de qual propósito.
Apenas vida. E se existe luta ou
Palavra que a defina, nem tudo
Pode ser dado ante essa estranha
Primavera, cujos indícios são bastante
Contraditórios entre si . E entre
As fronteiras que cercam os jardins
Verticais.

- Premiado no 54o FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí) de 2019. Publicado no livro "Falsas Estradas"
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