Biografia
Falsas Estradas: https://www.editoraprimata.com/falsas-estradas-de-francisco-guilherme/p
Lista de Poemas
A NOIVA INOCENTE
A noiva
é a noite nova
é o goivo
o açoite da ova
a noiva
é a vala
é a cova
resvala
na cobra
dela se cobre
revela
a pele
o elo
o pelo
a noiva
gos
ta
goz…
ahhhhhhhhhhhhhhh
a noiva
desfaz
o véu
prova
do próprio
veneno
o mel
CONTEMPLAÇÃO OBSCENA
O contato de dois corpos femininos
sob o véu tênue da noite
inaugura em mim certos espasmos
e eu os lanço -como brancos dardos-
sobre o linho.
Sobre o linho branco aqueles dois corpos
não percebem que estou ausente dali,
contemplando-os sem qualquer intenção
de possuí-los.
A MUSA FICOU INTRIGADA AO VER NUVENS NO CHÃO
De repente, a Musa
vê nuvens no chão
e pergunta aos céus
o que aconteceu.
Os céus respondem
“alguém – não sabemos
se anjo ou demônio-
em louvor a ti,
lançou ao chão
essa pátina branca
que, condensada,
se fez em inúmeras
nuvens”
A Musa, ao ouvir
tal resposta dos céus,
encheu de pudor
suas lindas faces.
Os céus, ao verem
a reação da Musa,
lhe perguntaram:
“por que tal pudor,
se sabes que tua beleza
é capaz de fazer
qualquer um tentar
a mais obscena proeza?”
A Musa então respondeu:
“geralmente me fazem versos
e dizem meu nome
entre a multidão
e eu rio com satisfação
mas ninguém nunca
ousou derramar-se
assim, como este
que gerou essas nuvens
tão lindas que vejo
no chão!”
“E como te sentes?”
- os perguntaram os céus -
“Desejada, porém intrigada.
Imagino que o autor
da homenagem tanto preza
a minha imagem
que não quis vê-la
infeliz de decepção.
Acredito que ele saiba
– com toda a razão -
que é incapaz
de prover-me
completa satisfação”
Respondeu a Musa,
sorrindo obscena.
E prosseguiu:
“E, sabendo desta verdade -
tal anjo ou demônio -
gastou toda sua virilidade
em louvor a mim”
“E o que pretendes fazer agora?”
-Perguntaram, curiosos, os céus.
A Musa, despiu-se, sorriu, respondeu:
“Ao desconhecido anjo ou demônio,
que me louvou com tanta devoção,
darei a merecida retribuição:
ao meu próprio corpo,
trarei um espasmo de satisfação”
A Musa tratou logo
de oferecer a si mesma o que prometeu.
Os céus
se aproximaram dela
tentando envolvê-la,
mas ela
- envolvida no propósito-
os rejeitou.
E só lhes restou
a piedade da contemplação.
Passaram-se muitas
inúmeras horas
até a musa se saciar
por completo,
e enfim, descansar.
Porém, no dia seguinte,
ao acordar, a musa viu
que o chão onde se deitava
novamente estava
de nuvens repleto…
Agora ela não perguntou nada aos céus.
Apenas repetiu o espasmo do dia anterior…
FLORES DE CHUMBO
De flores de chumbo, se desenvolve
Ao redor dos jardins e cresce com eles.
Se trata de uma noite de muitos anos
Para a qual as respostas não costumam
Surgir de onde se espera, de onde
A esperança mais produz os seus pedaços;
Mas de alguma região do pesadelo
Que nos sufoca enquanto ousamos
Seguir pelo mesmo caminho, entre
Montanhas, entre moinhos, onde
Se derramam gotas pequenas, de ferro,
De ódio e de sobressaltos. Dormiremos
Entre peixes contaminados. Árvores
Que, ao invés de frutos, produzem
Enforcados. Estradas que, na verdade,
Nos levam para o abismo, em meio
Ao fétido outono desses viadutos;
Dutos altamente explosivos. Encima
Deles, vivas casas. Paisagem, miragem
Potencialmente perigosa. Sinos sombrios
No alto da capela. Sinais sombrios:
Poesia vetada, mar por onde bóiam
Cadáveres,baleias. Chuva profunda
Chuva ácida. Água podre. Água morta.
Urubus e águias. Inebriante cheiro
De um ventre. Vida oriunda de algum
Bueiro ou lodo. Vida, não se sabe
De que tipo ou de qual propósito.
Apenas vida. E se existe luta ou
Palavra que a defina, nem tudo
Pode ser dado ante essa estranha
Primavera, cujos indícios são bastante
Contraditórios entre si . E entre
As fronteiras que cercam os jardins
Verticais.
- Premiado no 54o FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí) de 2019. Publicado no livro "Falsas Estradas"
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