Escritas

Biografia

Eu sou...e quem não é?

Lista de Poemas

Total de poemas: 18 Página 1 de 2

Sobre refletir o meu jogo

Fico tentando entender esse jogo criado,
onde as regras mudam conforme o vento — ou a saudade.
Um dia, já fui dona de bons troféus,
Mas hoje coleciono boas derrotas por WO.
Talvez a vida e a paixão sejam isso:
uma maratona onde todos correm mais rápido,
e a gente ainda se pergunta por que não chega nem na metade.
Mas quem se importa? Nem eu, agora.

👁️ 50

Sobre ser a própria autodestruição

Cadeira fria.
Escrevo frágeis linhas
na velha mesa,
o ar da biblioteca — denso.
Lá está ele:
pele alva, juvenil,
impecável terno cinza —
o mestre dos sebos,
cinema e poesia.
Mergulha nos clássicos.
Levanto,
sigo a sombra.
Espreito.
Não me vê.
Derrubo volumes:
o estrondo de Florbela Espanca ignorado.
Na janela, o giz afiado:
Onde estiveste esta noite?
Nenhuma reação.
A fúria é surda.
Volto ao assento,
cacos de livros
e dignidade no chão.
Que droga de maçã envenenada
é este gostar que destrói,
que me afia o lápis no papel
e sangra meus escritos?
Ah,
a doce
e estúpida
autodestruição.

👁️ 72

Sobre a partida da mesma parada

Aqui estou eu,
sentado,
naquela mesma
parada.
Recordo-me do dia
que me despedi
de vocês dois.
Duas das melhores
pessoas que já conheci.
Porque eu não tive
coragem
de convidá-los para irem
comigo de volta pra casa.
É triste saber
que vocês ficaram
e viraram minha assombração,
o meu medo, a minha culpa.
Porque eu não tive
a decência
de dizer que amá-os
e que deveria
ter aceitado eles
em mim.

👁️ 73

Sobre a minha identidade

Já fui a pessoa mais corajosa,
Quando eu estava em outras almas.
Sob nomes inventados,
Escrevia sob corpos, desejos, pele
Sem medo de ser lido.
A poesia me dava abrigo
- ou talvez desculpa.
Hoje, com o meu nome e assinatura, tremo.
Há um silêncio que pesa
Mais que qualquer metáfora.
Tenho medo de me revelar,
Mesmo quando grito por entre versos.
Parte de minha vida
Escorre pelas entrelinhas,
Tímida, contida.
Tentar me assumir na autoria
É como caminhar nu em praça pública.
O passado era liberdade disfarçada;
O presente é prisão com rosto.
Ainda escrevo.
Mas agora cada palavra
Pede desculpas antes de nascer.

👁️ 77

Sobre um certo vizinho...

Era uma manhã qualquer quando um novo vizinho chegou, com sorrisos tímidos e uma bagagem cheia de livros. Em um cochicho rápido, a outra vizinha me confidenciou que ele era um contador de histórias – o mesmo ofício que um dia já foi o meu. Da minha casa, a janela virou palco, e a dele, plateia silenciosa. Eu recitava meus versos em voz alta, enquanto ele, do jardim, se perdia na contemplação das flores.
Ao início da tarde, um simples aceno do meu jardim, e lá de longe, eu lhe mostrava os versos que habitavam minha casa: as rimas nos telhados, a poesia que se escondia nas sombras. Você olhou, viu de leve, mas logo voltou para dentro. No entardecer, sua casa permanecia fechada. Do meu quarto, peguei um espelho, lancei feixes de luz e criei uma constelação de metáforas, naquele crepúsculo que se despedia. Nenhuma porta se abriu. Nenhuma janela. Minha poesia, aquela que mora nas sombras do meu lar, não o alcançou.
Ele, que não ouve os ecos da minha prosa, parece não perceber. Onde estava você naquela noite? Pergunto em silêncio. E, aqui, sigo escrevendo.

👁️ 96

Sobre um alguém que a paixão não foi pra frente

Havia um jardim, de terra seca,
Regado por desejos que eu guardava em mim.
Onde cada gota era um instante de você,
Dentro de um cenário que não lhe incluía.
Refletindo uma paixão que só eu sentia,
Ignorando o fato que você jamais me olharia,
Com os olhos que eu queria que me vissem.
 

👁️ 108

Sobre os filmes de baixo orçamento

Eu já perdi as contas dos roteiros,
desses filmes de baixo orçamento que eu assisti.

O primeiro, um clássico drama romântico na cena,
um falso francês que queria ser cult.
Convidou a mocinha pra jantar,
derramou um copo d`água,
e no lenço, escondeu um batom vermelho,
revelando que era um português zero à esquerda (ou à direita?).
Um gênio das letras miúdas,
tão miúdas que ele não lia os próprios fracassos.
Os zeros que acumulava em cada ato,
uma bilheteria vazia, uma crítica implacável, nota 2.

Depois, um diplomata de quinta,
encontrado numa dessas viagens perdidas.
A viajante até caiu na história dele,
mas ele se perdia no próprio Direito Internacional.
Queria o mundo na palma da mão,
e está há sete anos preso na faculdade.
A única diplomacia que ele fez
foi escandalizar com uma conta de sexo explícito.
Um filme sem clímax, só cenas repetidas.

Em seguida, a tentativa de suspense que virou pastelão,
era para ser um prodígio do petróleo e da fé.
A cientista até acreditou em suas falácias,
e indicou ele pra outras pessoas,
mas ele não aguentou a primeira perfuração.
Trocou a engenharia e a bíblia pela beleza superficial,
porque o passado o desvelaria feio, 
e a física não criou a teoria do caráter
e ele esqueceu do pecado da vaidade. 
Dissecou na própria ambição de esquina,
um final anticlimático.

E o último, um documentário de negócios,
desses que você encontra na sexta à noite, na Lapa,
onde o personagem mentia as contas do tempo.
Mentia os anos, e quem sabe a vida,
tentando enganar a empresária com números forjados,
tanto que os repetiu várias vezes.
Mesmo não sendo a melhor em matemática,
ela não deixou o erro passar. 
Nesse filme, o único que reprovou
foi ele mesmo.

Luzes acendem, e eu sentada na poltrona da sala,
percebo que não perdi o meu tempo.
Eu só perdi uns trocados nos ingressos,
e assisti na primeira fileira
a grande falha de cada roteiro.
No final das contas, sou a única que saiu
desse cinema rindo, mesmo que a sessão tenha durado algumas horas.


 

👁️ 79

Sobre a partida prolongada

No raiar do dia,
o sol se vai
e a alma, em cores de sorriso,
se pinta pra disfarçar.
Na sombra que avança,
a verdade dança.
Não é só a dor,
é a partida prolongada de um lugar

👁️ 101

Sobre uma flor que arde no silêncio

A flor que arde no silêncio guardava um segredo mudo,
olhos que se cruzaram no acaso de um corredor contido,
promessa inaugural escondida na rotina do vivido,
lágrimas da primeira dor fecharam portas de desejo,
beijo que não se deu ainda arde na boca em lampejo,
teu olhar vestiu juras bordadas em cinismo sutil,
voz mansa soava melodia que virou alarme febril,
vi teu rosto reluzir na rede, feliz sob o azul do mar,
tua vida bem enquadrada cortou meu peito a sangrar,
hoje recolho cacos que calcei na solidão da ausência,
não foste espelho, mas fumaça a esconder a presença,
eu te amei sem contrato, e tu partiste sem aviso,
meu jardim cresce só, flor de assombro e de improviso.

👁️ 124

Sobre querer falar com você

Meus dedos tremeram
em querer falar com você.
Meus medos foram maiores,
porque você se tornou melhor
e eu fiquei naquele tempo
em que sentávamos nos bancos
dos corredores.

👁️ 183