Lista de Poemas
uma viagem solitária
apesar
da paisagem
a poesia su-
porta o pesar
por só estar-
mos
de passagem
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o(m)nibus
no ponto (de ônibus)
um pneu
círculo galvanizado
pára
úmido
ferramenta de levar gente de ponto a outro
no espaço (ligue os pontos e terá a cidade)
eventualmente a ferramenta esmaga um corpo
no asfalto
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bolha de sabão
..........................................................
..........................................................
do ar ao ar ......................
a bolha .............
nada ..........
na luz ..............
crepuscular ..........................
............................................................
............................................................
👁️ 543
cela-canto
poetas
peixes pré-históricos
praias remotas
à noite
luas de estátuas
gatos
olhos antigos
a antiga cidade dos telhados
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poeira
após o princípio foi a palavra
caindo sobre tudo
partícul-
a
partícula
letr-
a
letra
até que nada restasse
à vista
exceto a língua
cobrindo o mundo
camad-
a
camada
opaca como poeira
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estação qualquer
ontem meu amigo se atirou nos trilhos do trem
e não houve quem se atirasse postumamente
nem para salvá-lo
nem para imitá-lo
covardes
compareceram ao enterro, porém
exceto os mais covardes dentre
eu o vi se atirar e não me atirei
tampouco compareci ao seu enterro
morrendo de medo dos mortos, como morro
mas atirarei flores aos trilhos da estação ano sim ano não
sabendo que, como todos, há muito me atirei de uma estação qualquer
e apenas caio como um lenço ao vento
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sarro (à surdina)
não tem almíscar seu cerrado
entre dois morros ermos
(dessas terras fui pioneiro) alvos
onde cílios voleiam luz
(braços dados
conheço-a desperta
quando sinto seus cílios varrendo
os pelos do meu peito),
sua voz apesar da lua
e da rede elétrica
(veias e artérias à noite
forca sem cadafalso de dia)
sempre a morte de esguelha
como se não a pudéssemos advinhar
mordida pelas décadas (espero)
de sarro (i. é., nosso amor)
que lhe tiraremos ainda à surdina
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ídolos
Mais que fulguram,
os deuses figuram:
pinturas,vitrais,
frequentemente ex-culturas - pés de barro - cujos
olhos encerram onisciência de ótica
e cuja voz ouvimos em respeitoso
e sagrado silêncio,
ou talvez:
e cuja voz ouvimos, repletos de respeito:
o sagrado silêncio...
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âncoras
Uma mãozinha fofa,
uns labiozinhos molhados sempre limpos,
uma vozinha que já a descreve o diminutivo;
irmão, irmã, filho -
então um atropelamento imaginado e nada mais,
mentira,
lágrimas irreais de verdadeiras
por não terem a coragem de reconhecer o corpo -
abismo, buraco, poço -,
tampouco de imaginá-lo desfigurado:
ficaram fotos, filmes
e sua significância para a lembrança -
fêmea efêmera -,
âncoras no mar da infância.
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sol
sol
solua
soluamor
te
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Fábio Romeiro Gullo (1980, Santos, SP, Brasil) é escritor, tradutor, crítico literário e artista multimídia, com textos e trabalhos visuais publicados em sites, blogs e revistas eletrônicas.
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