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Lista de Poemas

A vida é a arte do desencontro

"A vida é a arte do desencontro". Cabe a nós, deambulantes, deslindar os nós a que nos propomos ou que o destino nos propôs. Cabe a nós, almas errantes, cortar o fio que nos conduz se assim o entendermos, para isso temos a razão: decidir: deslindar ou romper. Porém há vezes em que a razão é toldada por algo indecifrável, desgraçadamente poderoso. Estanques, em nós, por dentro, já nem o próprio pensamento controlamos e as palavras vagueiam incoerentes, soltas, libertinas (não livres, antes presas, muito presas, prisioneiras, escravas). Todo o ser se transforma, o próprio olhar muda. Brilha desmesuradamente. Cega camufladamente. O sorriso sorri impertinentemente sem motivo aparente. O pensamento descontrolado permite ao sorriso sorrir sem que tivesse perguntado à mente.

Perdidos, nesta arte de desencontros que a vida é, vivemos,  sem saber se vivemos mesmo ou se apenas projetamos nesta vida o esboço de um desenho inacabado, o tronco de uma árvore qualquer,  a asa de um corvo, a cor num pincel, uma tela em branco, vazia, um livro por folhear, desfolhar se a raiva deixar, uma canção por cantar, um poema por fazer, dizer, morrer, um filho por ter, um amor por viver, vinho por beber, mergulho por dar, vestido por vestir, grito por gritar, abafado, mudo. A vida é a arte do desencontro. Cabe a nós deambulantes, deslindar os nós a que nos propomos ou que o destino nos propôs.

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Reencontro


No teu olhar me encontro 
e tu no meu te perdes...
No desencontro do nosso olhar
vivemos a esperança.
Chega de bandeja num cálice
Simples, bordado a mãos de veludo,
esculpido a beijos.
Bebemos a esperança
Sentimo-la a arder no peito.
Embriagados de nós
da esperança de nós, sonhamos
com a luz própria,
cintilante,
de um olhar em reencontro…
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O amor é experiência metafísica

O amor é experiência metafísica.
Fascínio.
Meia, total loucura.
Crença, descrença, ilusão.
Beijo.
O amor é sorriso, gargalhada.
Dançar, cantar alto.
Rir.
O amor é silêncio.
O amor é lágrimas no silêncio de um abraço.
Capacidade extraordinária.
De aniquilar pessoas,
transformar o mundo inteiro num só lugar
desabitado, deserto.
O amor são dois, apenas dois.
Conjunto de dois.

O amor sou eu mais tu.


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Amor em forma de razão


A urgência do amor isola
a imagem à qual o pensamento sorri.
A imagem ideal que esta mola,
este coração emoldura na imaginação.
A urgência do corpo
da boca.
A urgências das palavras
[sei que me entendes...
sei que me ouves...]
A urgência.
Esta urgência é fatal.
Ésta urgência não é cedência,
é inteligência.
Pensamento.
Coração.
Amor em forma de razão.





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Homens de Corda

Fixam-nos.
Esperam-nos.
Enquanto isso, nem coração, nem mente.
Tudo pára.
Aguardam num sossego que nos desassossega o silêncio,
a calma...
Aguardam que sejam vistos.
Aguardam que sejam tocados,
não na pele no coração.
Aguardam. 

[A arte de aguardar é uma capacidade que fascina
mas eu, eu prefiro a impaciência.] 

Aguardam.
Dá-se corda e eles vivem.
uma espécie de sub vida
uma espécie de sombra da nossa vida
Vivem-nos ao segundo
porque são de corda
e sabem que a corda gira no segundo
da vida que passa.
E na lentidão do derradeiro segundo que passou
fixam-nos de novo
mais uma vez
todas as vezes até a mais um fim
e o recomeço
a corda que gira de novo
o primeiro passo
novos segundos
de vida, sub vida
sombra de vida do segundo que passa.

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O mundo inverte-se


O mundo inverte-se
e eu teimo em não me inverter com ele.
O tempo soa a rapidez de mil relógios
e eu teimo em pará-lo.
Agarrar o ferro dos dois ponteiros
e esmagá-los nos dedos.
Sufocar o tempo nos braços
como a um amante
que nos enterrou o corpo na alma.
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Fala de chuva e gente


Um dia perguntei à chuva o tempo
Me respondeu em gotas de pensamento
A mão, o luar e o coração.
Me pediu que lhe trouxesse a nuvem
E a coragem de lhe abraçar.
Lhe respondi que não podia
Gente não abrachuva
Nem abranuvem
E pouco pensa o tempo
Gente falama
Gente ama!
Parou num silêncio de orvalho
E em choro de quem não podia
Não podia também…
Expliquei que sim, podia
Porque na terra amor tem.


Poema escrito, em jeito de homenagem, quando Mia Couto recebeu o Prémio Camões 2013
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