Lista de Poemas

Ouves-me?

Espreguiçam-se as palavras neste contratempo de amor
e eu só queria poder atravessar a nado
o teu continente, a tua maciez frutada na minha boca

e dizer-te que foi por ti e através de ti
que me pus à escuta das vozes que ninguém ouve,
coladas ao chão, em ponto morto, à espera de um vento
que as levante e lhes diga que são tuas

que serão sempre tuas, caídas ou não, embaciadas de mim.

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Por mais de ti

Por mais de ti

E depois da boémia lá vens tu
sacudir-me a cidade para dentro do peito,
numa noite gigantesca que me atravessa a palidez.
Sabes que é no teu vácuo que abro as mãos?
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Deu-me (para isto)

Doem-me dois dedos descuidados, desculpa doerem-me demais. Doce dádiva daquele dia defronte do delírio, diante do desvelo da didáctica . Desejas dialectos digitais descritos de dentro deste diafragma. Descobres-me diurnas distâncias, dissecadas, desfeitas, dormentes de dramas. Doravante, deves destapar-me devagar, depois do dueto de detalhes dançados, dedilhando diâmetros desprovidos de decretos. Debruça-te, dedica-me decisões, datas, degelos. Dá-me dez degraus de deleite, dar-te-ei decotes de densidade.
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Anda

Levanta-te e vem
que o resto
não me importa

quero lá saber
se o vento
traz sal
ou clorofila.

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Gostava

Gostava de saber dizer
o que me acontece
quando fecho os olhos
e te imagino.

Sei que há becos de poesia,
palavras de papel cartonado
e fusos horários roxos
de tanto susterem a respiração.

Sei que há uma circunferência
na tua língua boreal
e um diálogo rasgado no frio
empedrado, contido, artesanal.

- e era bom que as madrugadas
encontrassem o caminho da saliva
dentro das cidades em defesa.

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39º

A temperatura a galgar o corpo
como um beijo em estado de sítio
a queimar, a queimar, a queimar

todos os poros e toda a saliva
desta febre

desta febre que explode todas as noites
a ranger como um passado de luz acesa.

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Um nada mais

A morte vestiu-se devagar e foi sentar-se à porta do prédio.
O azul da fachada desmaiou e fingiu já ter partido.
Ela pressentiu a fuga e aceitou. Faltavam pinceladas, não iria atrás.
Levantou-se e seguiu caminho, à procura de um pouco mais de fulgor.
O senhorio, quando visse a não-cor, teria que pintar tudo de novo.
E era esse o destino de um prédio cujo tom não encaixou na sorte
de ter que decorar mais um pouco de céu.
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Depois

Depois veio uma tempestade e tatuou-me nos olhos uma chuva miudinha.
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Fool’s game

O teu corpo é uma terra quente
desafogada e húmida
uma foice que resvala
de encontro à costa
de amores não-perfeitos
que perdem gás e rumo
no comprimento dos dias
na falta de pose e de garganta
quando o que mais queres
é uma comparação maior
um motivo para dizeres
que o amor também se usa.
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Amor

O meu coração está a meio da ponte
e tem o tamanho de uma violeta por arrancar.
É vagalume no casulo das tuas mãos,
que trinca as horas e assusta o tempo.
É janela para a calçada em pedra,
que te acaricia o pé esquerdo
e dá passagem às amendoeiras
que te crescem nos olhos.
É poesia que bate no teu peito,
é coroa trifásica de flor em punho,
que se descasca e mergulha no mar
à espera de – no fundo – te encontrar.
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