Escritas

Lista de Poemas

A menina-satélite

Lábios metálicos, 
Olhos dourados, 
venda de prata.

Sangue verde
nos dedos molhados.

Na torrente 
Das lágrimas de diamante, 
Um punhal de terra e água 
Atravessando o peito;

Uma labareda azul no ventre 
E um farrapo em cada pulso. 

Unhas pixeladas, desfazendo um
Malmequer:

Vagueia pela eternidade, sentada 
Na ponta de uma lua qualquer.
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Somos flores

Se me tirarem o segundo 
É o fim. 
Aquela casa velha e esburacada
É a memória amargurada da moleirinha 
Que já não cresce entre o musgo; 
É o resto de tudo e o vestígio do nada, 
Lembrando apenas o suspiro da velhice;
É a nostalgia do cheiro a relva, a fruta, 
A canja e talvez a bolo da padeira; 
É a reminiscência enevoada do que foi 
Família, ou nunca foi; 
É o beijo carinhoso dos pais dos meus pais, 
Canção de embalar que ecoa da sepultura;
É o desmembramento da realidade de um dia, 
Da qual sobra pouco; 
É a evidência do nada perante o desabar do mundo, 
É a finitude, o breve trilho que percorremos, 
O sorriso que é mortiço e passageiro;
É o funeral da terrinha, o enterro do bailarico, 
A miséria da filha e da neta, do cão também;
É a última página do livro. Desconcerta... 
Nem sabemos como o fechar e abandonar na prateleira,
Às teias.
É a flor que murcha, queixando-se do sol, da chuva, da terra: 
De tudo o que a fez florir. 
Damos flores e recebemos flores. 
Vivos ou mortos, somos flores. 
Da terra nascem, na terra caem. 
No mundo entram, do mundo saem.
👁️ 463

Pedra

A criança vê uma pedra, 
Mas nunca vê uma pedra: 
Vê um império, se a montar em cima de outra; 
Vê uma arma, se a lançar com uma fisga; 
Vê uma tela, se decidir pintá-la;
Vê um amigo, se a guardar consigo.

O adulto vê uma pedra, 
E vê sempre uma pedra - porque é só uma pedra. 
E a pedra é um espelho acidental… 
Somos o que vemos nas pedras.
👁️ 232

Giestas

Nós amamos 
Coisas raras 
Coisas novas 
Coisas sobre as quais sabemos pouco 

Mas tememos 
Coisas raras 
Coisas novas 
Coisas sobre as quais sabemos pouco
👁️ 229

Dog Complex

Quero ter cãezinhos 
A latir atrás de mim
👁️ 234

Des(apegos)

A parte enigmática de perder alguém
É que deixamos de a ver num corpo 
E passamos a vê-la em tudo. 
A morte devolve 
Sem avisar.
👁️ 191

aPecedário

Pintar pássaros
Parece patético,
Porém, potencia
Pinceladas peculiares 
Para perpetuar paz.

Profundamente perdida, 
Paradoxalmente perspicaz - 
Pessoa pede poema, pão, piedade.

Preconceito planetário, 
Patriarcado piegas, 
Pseudo-pátria, 
Pudor, perversão, protótipo:
Patrão. Pai? P*ta!

Pouco, pouco pedagógico, 
Planeta paralelo:
Povo pára, pensa, prega, 
Pestaneja, precipita, peca;
Paraíso, prejuízo,
Profeta, profeta, profeta…
Pateta. 

Premissa prepotente,
Protesto permanente.
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Pianista

Eu não toco
O piano 
Tem teclas
Avariadas
As melodias
E avarias
Da mente tocam
Piano 
Desafinado
O meu polegar
No lugar errado
Não toco 
O piano

Dois 
Acordes 
Cansados 
De tocar 
Os meus dedos 
A suar
Mas eu não 
Sei tocar o 
Piano 
Hoje

Tenho os ouvidos 
A apitar 
O alarme 
Aleija-me 
O ritmo

Conhece
um pianista 
Que não sou 
Eu 
Que não toco 
O piano 
No palco 
Não sou 
Artista
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Nada para sentir

Vivo todos os dias 
Para te amar 

E amo-te a cada instante 
Com saudade 

Para que quando partas 
Não reste nada para sentir
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Sobre soprar demais

No lugar do coração, 
Um balão; 

No lugar do cérebro, 
Uma agulha. 

Das muitas formas de ficar sem ar, 
Escolhi soprar.
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Comentários (1)

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thaisftnl
2020-09-02

Belas poesias, amei!