Escritas

Lista de Poemas

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Autópsia (Bernardo Almeida)

Caminhamos com os mortos, enquanto expiramos
Esperamos a eternidade e perecemos nos torvelinhos dos anos
Que fogem ao que vivemos, como se eternos fôssemos
Falhamos e nos entretemos, tão logo o erro se faz efêmero
Fosse um raro verso fúlgido a crepitar na órbita do sol
Desalojaríamos o futuro, sem compreender o fulcro das eras
Não sem danos, escalamos a escarpa do astro venerando
Íngreme soluço da inexatidão a vociferar crueldades
Aspergindo, anonimamente, generosidades
Nos maremotos dos ânimos, nas veredas da incompletude
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150 megatons (Bernardo Almeida)

Eu era forte quando negligente
negava a influência indolente
do tempo sobre a existência
era ventania, braço cortado
apartado do corpo
a remar contra a maré
era bravio e independente
perene, inteiro, transversal
eu insurgia e contemplava
não queria ser aceito ou acolhido
eu evitava ser especial
o mais lembrado, o escolhido
eu não queria nada de menos ou de mais
tinham-me como indiferente
eu não era nada além de livre
e esse pouco que eu tive
era o infinito que me bastava
estava só – e não tinha consciência
do que era a solidão
a tristeza não passava de um condão retórico
sobre um ponto de vista cadavérico
no deserto estratosférico da multidão
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Solfejo (Bernardo Almeida)

Tomba a foice meteórica sobre o balneário em chamas
O mar recua, enquanto o continente a bailar avança
Sob o céu de cobre, que se adensa na manhã magenta
O estrondo agônico acompanha o relampejo contra o qual adeja
O firmamento se arrebenta e a ordem viceja – reintegrada ao caos
Restituindo a paz ao cosmo, no universo outrora cindido
A soletrar o nome recôndito de toda e qualquer espécie
Ungindo de vida a ira que se aventurou no fluxo incessante
De energia redobrada, na destruição dos feixes da história
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II - As manhãs decantam os sonhos mascados dos mortos (Bernardo Almeida)

As manhãs decantam os sonhos mascados dos mortos
Os corpos do tempo soterrados pela barbárie
Malsãs irmandades nos olham pelo viés da eternidade
Nas memórias entremeadas, o viço e o festim da saudade
Revezam-se em um balé macabro: cantos sórdidos
De mórbidos dançarinos; felizes saltimbancos divinos
Seduzidos pelo temerário brilho secreto e imerso no lodaçal
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Remoto (Bernardo Almeida)

O som do mar
     a ricochetear
  nas fronteiras
            invisíveis
da inóspita imensidão

Chão em desintegração
      queda, apupo, alienação

E o oceano, em derrisão,
impassível – a compor
a canção da criação
do infinito

Íntima transformação
no ínfimo átimo universal
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De todos os decanos insanos e profanos (Bernardo Almeida)

Na minha casa destampada
Baratas surgem das panelas
Rugem nas madrugadas
Têm tamanho de ratos
Na sala, morcegos rondam
Cadeiras aleijadas e abajures sem luz
Tateiam, bêbados, os prantos do escuro
Em círculos incompletos — devoram o absurdo
Os pisos não participam do festim
Pedem apenas para ser trocados
Súplica negada!
No prédio, não há janelas
Mas televisões
Cujas telas são auditórios
Em que o palestrante profere
Um discurso pornô
Em sincronia
Com os reais ruídos
Do amor
Aqui, nas madrugadas
Da Bahia, em Salvador
Não existem santos
Talvez cheguem como tais
Mas morrem sempre mundanos
Nada a expiar, somos todos perdidos
Processo de canonização interrompido
Pelos eflúvios sexuais
Pela efusão da libido
Embebidos em êxtase
Peristálticos excessos
Na cidade que é mãe
E amante do poeta
Que é tia e mãe
Das minhas netas
Devotos do prazer
Todos os santos amuados
Converteram-se em vivazes peregrinos
Em busca do deus humano do orgasmo
Que redime o pecado
Sem tentar curar ou glorificar
Aquilo que já está salvo e satisfeito
Ceifado, deglutido, envenenado e celebrado
Pela carne nua da hóstia
Banhada nos mares hostis
Relutantes e resolutos
Da pia batismal oceânica
Na qual deitou a cabeça
Do nome de nascença
Dessa terra lúbrica
Que se fez povoar
Pela indiferença
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I - querer, na febre (Bernardo Almeida)

querer, na febre,
a hecatombe
algo além da fome
refém do ódio
do incômodo óbvio
do estrondar
da queda
da ponte
ferir o nome,
que ressoa
na escuridão
desejar o vórtice
da madrugada
óbice recôndito
intenta o nada
na falta que afaga
o olhar a se deter
no passado que se apaga
preciso inalar
a escassa sensatez
decifrar algaravias
e inventar naufrágios
comover o plácido
rebelar ninguém
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