Lista de Poemas

Ainda te procuro no silêncio

Carta 📩 a quem partiu sem dizer adeus

Minha querida! 

Partiste.

Foi assim —
como se o vento te levasse,
sem alarde,
sem um adeus bordado nos lábios.

Como quem apenas se ausenta
por instantes breves
e, no entanto,
não volta.

Ficou o lugar à tua mesa,
o calor suspenso no ar,
a sombra ténue do teu nome
ainda escrita nas paredes.

Não deixaste um sussurro,
nem uma despedida.
Só o rumor dos dias
a caminhar para a frente,
sem ti.

Procurei-te,
sabias?
No dobrar da esquina,
no silêncio das fotografias,
nas horas que se recusam a passar.
Mas tu foste
com a delicadeza cruel
de quem não quer doer.

E doeu.

Com ternura que resiste,
B'Carte.

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Quando a Dor Faz Ninho

A dor veio com passos de sombra, escorrendo pelos cantos da alma como chuva que não avisa. Fez morada entre as costelas, estendeu sua manta fria sobre o coração e calou os pássaros da alegria. Tudo que era cor desbotou; até o silêncio passou a pesar como ferro quente no peito. A esperança, coitada, encolheu-se num canto, feito bicho ferido.

Ela canta baixo, com voz de vento cortante, e seu canto fere mais que o grito. Tem cheiro de ausência e gosto de lágrima engolida. A dor não quer respostas — ela é, simplesmente. Cresce nos espaços vazios das palavras não ditas, floresce nas lembranças que se recusam a morrer. Ela se aninha no escuro e se alimenta de tudo que nos falta.

Mas até na dor mora um sopro de vida. Um fio de luz por entre as tramas do luto. Porque o coração, mesmo trincado, aprende novas batidas. E aos poucos, quase sem querer, a gente descobre que sobreviver também é arte — uma arte feita de cacos, mas ainda assim, arte. E quem caminha com a dor no peito carrega também a semente da cura.

B'Carte

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Entre Vozes e Papéis

As paredes do edifício central brilham de novo. Pintaram-nas há pouco, antes da última visita oficial. Por dentro, tudo continua como antes — corredores longos, passos apressados, vozes medidas. A cada canto, alguém carrega papéis que ninguém lê, assina o que já estava decidido.

Na rua, uma mulher espera. Carrega laranjas num pano velho e olhos que não piscam. Já viu três governos e muitos discursos. Aprendeu que o que muda é a cor dos cartazes; as promessas, essas, têm o mesmo gosto seco. À noite, o noticiário fala de progresso. Ela sorri com o canto da boca — não por descrença, mas por costume.

O filho dela sonha com farda e respeito. Quer servir. Acredita que o país precisa de homens justos. O pai dele, que conheceu as filas de arroz e os empurrões por gasolina, apenas escuta. Já não diz muito. Os olhos fazem perguntas que não chegam à boca.

Ali, onde as luzes são mais fortes, poucos escutam o que se diz nos becos. Mas os becos falam. Sempre falaram.

B'Carte

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O Bem Que Me Escapa

Queria fazer o bem com as duas mãos abertas,
mas tropeço sempre nas sombras que carrego.
O mal que detesto me veste com facilidade,
enquanto o bem me escapa como vento entre os dedos.

Oro com sinceridade, clamo por mudança,
mas na esquina da alma, erro de novo.
Há dois de mim em guerra constante —
um que Te ama… e um que Te trai.

E mesmo coberto de culpas e promessas quebradas,
Tu vens. Não para me condenar,
mas para sussurrar: "Minha graça te basta",
quando eu só esperava o silêncio do céu.

Então sigo, entre quedas e recomeços,
não porque sou forte, mas porque Tu insistes.
Se o bem me foge, é Tua misericórdia que me persegue,
e nesse amor que me constrange… eu respiro.
⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠
⁠⁠⁠B'Carte

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