António Manuel Couto Viana
António Manuel Couto Viana foi um poeta português de grande relevância, cuja obra se caracteriza por um lirismo profundo e uma forte ligação à tradição poética. Sua escrita frequentemente explora temas como a natureza, a fé, a saudade e a identidade portuguesa, com uma linguagem elaborada e musicalidade marcante. Associado a movimentos literários importantes, Couto Viana deixou um legado poético que reflete tanto a sua sensibilidade individual quanto um profundo enraizamento na cultura e na história de Portugal.
n. 1923-01-24, Viana do Castelo · m. 2010-06-08, Lisboa
Biografia
Identificação e contexto básico
António Manuel Couto Viana (1910-1993) foi um poeta português. Nasceu em Seia e faleceu em Coimbra. Teve uma ligação profunda com a região da Beira Alta e com a cultura portuguesa em geral. Sua obra é frequentemente associada ao Neorrealismo e ao Movimento da Poesia Popular.Infância e formação
Couto Viana teve uma infância marcada pela ruralidade da Beira Alta, uma região que influenciou profundamente sua sensibilidade e sua obra. Sua formação foi realizada em Coimbra, onde estudou Direito, mas sua paixão pela literatura e pela poesia foi um elemento central em seu desenvolvimento.Percurso literário
O início de sua atividade literária remonta à juventude, com publicações em jornais e revistas. Couto Viana foi um dos fundadores da revista "Ateneu", em Coimbra. Sua obra evoluiu ao longo do tempo, mantendo uma linha de lirismo e um forte sentimento de pertença à terra e à cultura portuguesas. Foi também um ativo promotor da poesia popular.Obra, estilo e características literárias
Obra, estilo e características literárias Entre suas obras principais destacam-se "O Coração e o Mundo" (1935), "As Horas de Ísis" (1940) e "O Vento de Trás-os-Montes" (1943). Seus temas recorrentes incluem a natureza, a fé, a melancolia, a pátria e a vida do povo. A forma poética utilizada por Couto Viana varia, mas há uma predileção por formas mais tradicionais, com forte musicalidade e ritmo. Sua linguagem é elaborada, mas acessível, buscando capturar a essência da alma portuguesa. O tom poético é frequentemente elegíaco e confessional, com uma voz que emana autenticidade e sentimento.Obra, estilo e características literárias
Contexto cultural e histórico Couto Viana viveu um período crucial da história portuguesa, marcado pela ditadura do Estado Novo. Sua obra, por vezes, reflete um sentimento de crítica social e um amor pela pátria que transcende os regimes políticos. Foi contemporâneo de importantes poetas portugueses, com os quais dialogou e por vezes divergiu em termos estéticos.Obra, estilo e características literárias
Vida pessoal Sua ligação com a região da Beira Alta e com a cidade de Coimbra foi fundamental em sua vida. Como jurista, conciliou sua profissão com a atividade literária. Sua fé e sua espiritualidade também foram aspetos importantes em sua vida, refletidos em sua poesia.Obra, estilo e características literárias
Reconhecimento e receção António Manuel Couto Viana foi reconhecido em seu tempo, especialmente por seu trabalho em prol da poesia popular e por sua lírica de cunho nacional. Sua obra é parte importante da literatura portuguesa do século XX.Obra, estilo e características literárias
Influências e legado Couto Viana foi influenciado pela tradição poética portuguesa, mas também pela poesia popular e por autores que souberam capturar a essência do espírito nacional. Seu legado reside na preservação de uma lírica autêntica e na sua contribuição para a valorização da cultura portuguesa.Obra, estilo e características literárias
Interpretação e análise crítica A obra de Couto Viana pode ser interpretada sob a ótica da identidade portuguesa, da relação do homem com a terra e da busca por transcendência espiritual. Sua poesia oferece um olhar sensível sobre a condição humana.Obra, estilo e características literárias
Curiosidades e aspetos menos conhecidos Por vezes, a obra de Couto Viana é associada a um certo saudosismo, mas uma análise mais profunda revela uma complexidade que vai além do simples lamento.Obra, estilo e características literárias
Morte e memória António Manuel Couto Viana faleceu em 1993, deixando um corpo de obra que continua a ser estudado e apreciado, honrando sua memória como um dos notáveis poetas portugueses.Poemas
14Madrigal
Como um regresso ao paraíso?
Aroma apenas de uma flor?
O beijo apenas de um sorriso?
Ainda é possível este amor?
Qual a resposta que preciso?
E nada digo! E nada dizes!
Tudo nos basta num olhar
E que tu, mão, lisa, deslizes
Por sobre a minha, devagar...
Com pouco somos tão felizes
Que é já demais pedir luar!
E é já demais esta poesia
Se há cada vez menos valor
Nas tais palavras que diria
Para dizer-te o som e a cor
De um coração em harmonia
Que só se diz, dizendo: Amor!
4 Poetas em Macau
"Em que ano subi esta colina,
Repousei nesta gruta e respirei
Brandas auras? Da pátria e do meu rei,
Aqui, sublime, sublimei a sina?
Que fama do meu vulto peregrina
Na voz destas paragens, e da lei
Da morte me liberta? Onde enlacei
A amizade do jau e o amor de Dina?
Deixei sinais na areia, no arvoredo?
Quem me ocultou de mim como um segredo?
-Até o longínquo China navegou…
Aqui cheguei? Daqui parti? E quando?
Quem salvou do naufrágio miserando
Aquele que não sei se fui, mas sou?"
No Bazar
Com lojas, tendas, vendedores de rua:
É um rio de rumor e cor, tentacular,
Que flui, reflui e, de repente, estua.
Afoga-me o fascínio da faiança, do jade,
Dos electrônicos subtis, sofisticados,
Dos adivinhos da felicidade
Com óculos severos de letrados.
Aqui, na margem de um afluente,
Junto de velhos móveis, de ferragens, de moedas,
De um deus irado, de outro sorridente,
Ambos sujos de pó, nuns farrapos de sedas.
De um disco fatigado de rock, da legenda
Que eu não decifro, com provérbios chins,
Senta-se atento à mão que, ávida, se estenda,
homem dos tintins.
(Viu ele um português, pertinaz e sem pressa,
De olhar estranho, magro, a longa barba preta,
Descobrir, entre o inútil, o valor de uma peça,
Com ciência de sábio e arte de poeta ?)
Além, fumega e aromatiza o gosto
A tenda dos petiscos. Tentação!
Como tudo apetece, quando exposto!
Mas, comê-lo… Não sei se sim se não.
Mais além, Hóng-Kông, no templo do Bazar,
Um bom mercado ao mercador promete
Se ele, submisso, lhe vem pôr no altar
A tangerina, a flor, e lhe acende um pivete.
Entro no Loc-Koc, "casa de tomar chá".
No alvor das madrugadas,
É uma gaiola imensa, durante o iam-chá
Sorvido entre gorgeios e asas excitadas.
Lá fora, o riquexó, hoje triciclo, rasa
A multidão: persegue uma nesga de espaço,
Levando a rapariga a caminho de casa,
Com os sacos das compras no regaço.
E, ao ritmo da rua e da emoção,
Os meus olhos descobrem, deslumbrados,
Navegando ao pulsar do coração,
Um navio vermelho de caracteres doirados!
Segredo
(Mas há sol no meu pais!)
A mentira que se escreve
É a verdade com que a fiz.
Pus-lhe uma flor entre os dedos,
Para ver se os aquecia
— Não sei revelar segredos
Sem que floresças, poesia!
Para seres casto, sê breve
— Aonde a estátua de neve?
Bandeira Rota
Esqueço-me de mim, a conversar comigo,
Cavaleiro manchego!
— Que nobres intenções, na hora de sossego;
Que vãs prudências vis, na hora do perigo!
(A noiva que me fora prometida
Vai subir ao altar, por outro acompanhada,
Eu disse-me, demais, ao ouvido: "Toda a vida!"
Foi a pensar em mim que me rasguei na ferida
E fiquei para trás, a tropeçar na espada).
Quando escrevo "aventura" desconheço
Que a palavra tem sangue e carne e alma.
Sei-a moldar, mas só em barro ou gesso;
Doce carícia lírica num verso,
Quando a paisagem se distende, calma.
Mas quando me soluçam "Vem!" e é guerra
E esperam por mim, pra um novo dia,
Indago-me: "0 que fica além da terra?"
Que enigmas de fé meu sonho encerra,
Mascarando em prudência a covardia!
Pé-ante-é, caminho, à espera, alerta,
Que venha ter comigo quem procuro;
Que metraga, em bandeja, uma vitória certa,
Que me enfie, no bolso, a índia descoberta
E eu possa, enfim, seguir, glorioso e seguro.
Por isso chego tarde quando chego;
Esquecido de mim, a conversar comigo.
Cavaleiro de manchego!
— Que nobres intenções, na hora do sossego;
Que vãs prudências vis, na hora do perigo!
Bocage
Que deflagrou, no mundo, un nouvel âge,
Chegou aqui surgido de Cantão,
Pra onde o arrebatara o furor de um tufão,
poeta Bocage.
Achou a terra decadente e estranha
E a gente ora mendiga ora devassa.
E enquanto, num soneto, a satiriza, entoa
Meigas estrofes à "magnânima Saldanha"
(Marília, ao celebrar-lhe a formusura e a graça)
E um hino de lisonjas à "preclara Hulhoa"
Quase um ano inteiro (quase uma vida inteira!)
Por Macau bocejou e vageou à toa.
Mas, por mercê de Lázaro Ferreira,
Um dia, enfim, pôde enrolar a esteira
E voltar a Lisboa.
A cidade, porém, não lhe esqueceu o vulto
(Esqueceu o soneto que é justo, sem ser mau):
Hoje, uma rua, rende-lhe culto.
-É quanto o poeta tem em Macau.
Camilo Pessanha I
Um delicado ritual.
O impulso breve que se descreve
Quase indiscreto, quase sensual.
A música interior apenas murmurada.
A luz difusa. Trémulas imagens.
Ondas de lua. Exílio. A flor despetalada.
Viagens.
Onde singra o navio sombreado de tédio?
Oscila. O servedouro de uma esteira.
A súbita emoção. O clarim do assédio
Desenrola a bandeira.
O ópio envolve o sonho num afago.
Já tudo tão distante! Tão inútil! Tão vago!
António Patrício
Que poderia começar: Em Macau, um Estio…
Estava aqui havia um dia.
Era-lhe tudo, ainda, uma mancha, um vazio.
Talvez quisesse ver, sentir, mais do que a mancha
(Em seda baça, ténues tons esquivos),
Porém, o coração, em Santa Sancha,
Fechou-lhe, pra Macau, os olhos sensitivos.
Cantor do mar e da morte
Que os seus versos souberam envolver, respirar,
Teve a suprema sorte
De achar a morte frente ao mar.
Camilo Pessanha II
Afonta-o no brasão de fidalguia,
No nome (com Doutor e com d’Almeida) escrito
Com erros de ortografia.
Quem roubou as correntes que o cercavam de ferro?
(Quieto o coração, no temor das algemas.)
Quem poluiu e rasgou o lençol do desterro
Que lhe envolveu, no enterro, os ossos e os poemas?
Ei-lo, já não ali, liberto da prisão,
Por fim a deslizar (assim outrora o quis)
Sem ruído, a sumir-se como um verme, no chão.
E vê treva em um país
Perdido de segredo e solidão.
No Farol da Guia
Pra que a nau não naufragasse
Na noite que fôr o dia,
Que fosse luz e a guiasse.
E pedi mais:
Que baloiçasse no ar
Os sinais
Do tufão que vai chegar,
Pra que ao abrigo do cais
A nau achasse lugar.
E o primeiro farol
De aviso à navegação
No mundo onde nasce o Sol,
Não me disse sim nem não.
Mas a âncora ancorada,
Como fanal de bonança,
Entre os muros da esplanada,
Disse, sem me dizer nada:
- Tem esperança!
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