Lista de Poemas
SEIS ESTROFES EM CONSTRUÇÃO
1.
A boca é às vezes o deserto
vem da serra o ar como um clarão matar a sede
às pontas queimadas do silêncio.
2.
Obscuras palavras
que por promessa atravessaram
de corpo mudo a noite.
Luzem.
3.
Uma letra
uma sílaba que lhes falte
e as palavras assim prenhes de mistério
terão na tarde o seu florir.
4.
A solidão procura as árvores longe do mar
a pele seca queimada pelo frio
do vento ninguém saberá domar as vagas.
5.
Ainda do vento:
levou para o exílio as minhas mãos
cartas chegam de lá contando tudo sobre o rapto
foi tudo plano do esquecimento.
6.
Como se chovesse e o entardecer
não soubesse que a noite que vem
não é a que ele esperava.
AVEIRO REVISITADA
Não sei se algum dia saberei polir esta pedra
polir uma pedra é vestir de branco as palavras
nestas ruas de água como se vive? quero dizer
como se apanha do chão
o silêncio em que se embrulha o tempo?
como cortar com arestas de luz os cabelos
por secarem na rocha triste em que se estendem?
quero dizer como se caminha entre duas luas
tão idênticas reflectidas na água que repetimos
as palavras assim que as vemos?
e como beber as vogais dos edifícios manter a cabeça
fora de água procurando a altura das chaminés?
pergunto como se vive nestas ruas de água
no gume de prata polida de um espelho? ou seja como se caminha
e atravessa a cidade e se morre ao atravessar uma rua
com o sentido da água a propagar-se nos pés?
A INTERRUPÇÃO DO ROSTO
1. interrupção da boca
Onde um astro havia que queimava à distância os lábios
por causa da ignorância que de si crescia na boca
como uma pedra fria escurecida
2. interrupção dos rios
lavravam os rios as pessoas sem terra
encardiam as mãos e os pés com o mistério
dos choupos acesos pela água e deles dos rios
guardavam apenas o rumor que se lhes ouvia
ao atravessarem juntos o tronco nu da tarde
3. interrupção das palavras
a madeira chegava à cidade para
construir casas e acender lareiras
toros que vinham de longe
da luz rápida das inclinações sobre os rios
que no seu sangue deixavam a imitação
do movimento
que vinham das vésperas do gesto largo
de vidro do machado inicial
onde o olhar não penetra a bruma
são vazias as palavras
sem o sangue dos primeiros nomes
bestas que nascem mesmo assim
lembram ausências
em casas a que se perdeu a chave
4. interrupção das casas
as pessoas guardavam os cobertores e os lençóis
em arcas que arrumavam sob a luz tardia
como se preparassem os minutos para a noite
e quando chovia olhavam pela manhã da janela
a curva da rua que tomavam para o trabalho
onde a água no inverno se acumulava muito funda
e quando ao fim do dia chegavam a casa fechados nos muros dos passos
bocejavam de fome e sono o frio que traziam para as mesas
as casas são palavras com paredes
frases que chamam pelo calor de um nome habitado
aqueles que a elas regressam
5. interrupção dos cabelos
as pessoas traziam os cabelos apanhados
e na algibeira pedaços de silêncio que recolhiam
os seus avós nas aldeias debruçavam-se sobre as horas da terra
para apanhar as batatas
espreitavam por hábito ao fim do dia o avanço da vida
na porca parideira no pocilgo e antes do deitar
ouviam em pequenos rádios canções que os ponteiros
do relógio decoravam como decoravam o seu caminho
não é fácil os cabelos esquecerem a linguagem idêntica do vento
transformarem-se em arame
6. interrupção do olhar
o olhar das pessoas parava no ruído da areia pisada
e no mato dos bosques que da acidez da luz
não protegia
das casas altas do tempo não havia notícia
ou da forma como o mar recebe a curva larga das gaivotas
os peixes que a profundidade guarda
e desse mar algas havia que queimavam os olhos
e eles por isso o ignoravam como se ignora o mundo
7. interrupção do rosto
como pode o rosto ser contínuo
sem o vidro da memória
que do sono se não levanta
como se pode
com a poeira das pedras continuar o rosto
8. interrupção do silêncio
vestem camisas engomadas as pessoas
para calar os murmúrios que se escapam
da nudez dos troncos sob a luz trémula da tarde
procuram no silêncio o casaco para o frio
e o ruído dos carros que passam nas suas ruas descendentes
é abafado e perde-se no esquecimento da curva em que terminam
as cidades despem aqueles que morrem longe dos rios
de que perderam o risco sussurrante nos mapas
e bebem o mosto do seu silêncio
9. interrupção da fala
dificilmente se calçavam de manhã as botas
ocupadas que estavam pela sombra das palavras
recolhia-se o reboco do chão junto às paredes
da interrupção da fala sabemos porque
no muro precário das palavras ficou
a impressão forte de uma mão a cor de sangue
o primeiro gesto
de quem entra nessas casas de barro
à beira do deserto.
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