Lista de Poemas
Vivo!
Em cada passo de chão que os meus pés pisam
Permanece a marca da determinação
O desenho onde perpassa a mensagem de gratidão
A pintura que perdura na existencial dimensão
Vivo!
Porque a morte é o acontecer metamórfico
Mais grandioso do que a minha consciência
Pode neste momento compreender
Mas sinto que o fogo não se pode extinguir
Alimento-o com o sonho de um amor
Que é escudo à invasão de medos e raivas
Transfigurando-se num atenuativo à dor
Vivo!
Porque este bem-estar que me invade
Traz-me de volta a força apropriadora de vida
E as criaturas geram no meu âmago reconhecimento
Enquanto envergo as roupas do otimismo
Saio para a rua que me empurra para o riso
E abro os braços ao céu bendizendo o mar
Venero a montanha e é tudo o que preciso
Vivo!
Cada dia como doce presente
E quando em silêncio e de olhos fechados
Planar em direção às estrelas longínquas
É na escuridão abismal que a paz me visita
Me aconchega e acarinha e a alma vibrante me enfeita
Há uma sabedoria na condescendência
E na tolerância que une os entes
Então nesta unidade esvoaço e diluo-me
Transformo-me e perpetuo-me!
👁️ 317
Norte e Sul
Perder o norte onde em pureza descansa a neve
É anular a sabedoria primordial a confiança
Que se deve ter no processo caminhando de coração leve
Perder o respeito pelos que foram premiados com cabelos brancos
É ter perdido a bússola que nos orienta
Só ver em egoísmo as nossas necessidades
E espezinhar quem fica inadvertidamente nos flancos
Perder o norte é ter esquecido a ligação ao todo
É confundir a ganância pútrida com a essência da sabedoria
É alienar o pleno o único o que nos liga a todos no plano mental
A força cósmica que nos conduz em harmonia
Perder o norte é desistirmos de analisar o invisível
É entrarmos num labirinto sem luz não querendo a vida perceber
É incorporar num fantoche sem alma
É negarmos a grandeza do espírito recusando-nos a meditar
Os homens perdem-se num lago pútrido de ilusões
Nem o sul já conseguem vislumbrar
Chacinam as criaturas destroem as florestas
Para construírem a ferro e betão catacumbas de podridão
Esqueceram que devem abraçar a natureza com paixão
Os oceanos as montanhas os vulcões
Os maremotos as tempestades as grandiosas monções
👁️ 686
Tempo intermédio
Espera-me uma viagem para além do material
Aliviando-me desta dimensão confinada ao físico descendente
Preparo a mente para o baile quântico
Componho o ânimo para uma ausência premente
Ergo os braços como fios de ligação ao divino
Entro no tempo da melodia onde impera a suave dança
Esbato-me e extravaso para além de mim
Misturo-me com o cosmos em florida mudança
Entranho-me num templo labiríntico onde a criação
Se expande se anima se ateia em transe
Entrelaça os entes num jogo de participação
Traz consigo a semente indestrutível do devir
Da renovação do renascer do reconhecimento da meditação
Neste tempo intermédio aguarda-me a reminiscência da origem
O abraço sagrado do retorno ao ninho à unidade
Sem traumas sem amarras apenas o flutuar do ser
Em metamorfose energética sem maldade
Em liberdade na procura incessante do semelhante
Como um filho perdido que tenta encontrar o pai
Vibro entre galáxias em espiral de abismos
Como um existir que permanece eternamente nem fica nem vai
👁️ 301
Raiz
A vertigem da mudança estoura em faúlhas
Centelhas multicolores dos tubérculos até às flores
E das flores sedutoras aos frutos nutrientes
Dos tresloucados agitados viventes
Tudo se enleia se embaraça permanece e ultrapassa
Se afirma pela verdade e se contradiz
Das aveludadas pétalas à fria e dura raiz
Tudo se distende se atrofia
Se fecha à noite e se abre ao dia
Tudo é rutura tudo é junção
Tudo é estático e se estende à disjunção
Porque os verdadeiros marcos de vida
São os momentos divinatórios de alteração
Um caule desbrava a terra seu leito
Sobrevivendo afoito à fúria dos elementos
Que desencadeiam o inconstante caos
Criando rompimentos constrangimentos fissuras
Mas no centro em agonia da tempestade revoltada
Acontece o milagre da floração no campo de amarguras
E onde outrora inundações provocaram a destruição
Renasce um chão verdejante em delírio de rebentação
Ondulando ao vento amigo num abraço protetor
Porque a mágoa se foi surgindo uma forma de ser indolor
👁️ 353
Sopro de vida
Sopro de vida!
Que premeias os seres ávidos de movimento
Galardoa-os com a lucidez com que vibras
Sintoniza estes braços que sustentam as mãos
Em direção à reconciliação
Porque as criaturas navegam no caos
Perdendo o contacto com o eterno
Persistindo enlouquecidas e esquecidas
Neste cintilar no escuro averno
Sopro de vida!
Faz com que o sémen incólume
Esvoace sobre os oceanos mais revoltos
As guerras mais macabras
As feridas mais profundas por cicatrizar
Os sentimentos de agonia e raiva
Sem a benevolência almejar
Sopro de vida!
Transporta a pequena semente mais potente
Para terrenos férteis singelos e puros
Onde o homem em transmutação
Ultrapasse este presente estonteante e degradante
Acalenta a sua alma e dá-lhe guarida
Onde o renascimento possa acontecer
Pois percorre o mundo perdida e a ensandecer
👁️ 343
Torrentes desarvoradas
Rios se formam onde outrora
Criaturas corriam em vivências que se diluíam
Nos gestos autómatos de quem é programado
Para um labirinto de ilusões
Distinções devaneios e podridões
Torrentes descontroladas descem montanhas
Arrastando seres sonhos
Corpos e monstros medonhos
E nesta torrente tudo se perpassa
Tudo se abraça num transe breve instante
Gota de eternidade palavras sem sentido
Sem significado sem luz sem idade
Gigantes rochedos se abrem em frestas
Fissuras que se movem obedecendo à necessidade
À luta de titãs e então num relâmpago incerto
Os altos cumes desabam
A superioridade é devorada pela transição
E as imponências reverências acabam
E nesta transmutação dá-se o retorno
Ao despertar num amanhecer que deixa marcas
De brancura neste chão que ainda piso
Enquanto um trovão imenso e aterrador
Percorre o espaço feito deste enlaçar
Que ainda me prende
Nesta subtileza bordada de estranheza
Onde a pequenez em lascívia se mistura
Em tentáculos de exuberância com a grandeza
👁️ 338
Árvore do renascimento
Contemplo a dança dos entes angélicos semelhantes
Em redor da árvore frondosa do renascimento
Vislumbro a agitação harmoniosa da ramagem
Mesmo na estação cinzenta de temporal
Onde se afundam determinadas e austeras as raízes
Procurando a escuridão qual abrigo do vendaval
Caindo as folhas em perfeito desmaio adubando a terra
Onde as criaturas subsistem em gigante estendal
Que onda raivosa agitada e tresloucada
Inunda impiedosamente a Terra
Erguendo-se em espuma esbranquiçada
Destruindo indiferente as arribas
Raptando a suave e frágil areia
Deixando a embarcação humana encalhada
Onde se perpetuam e escondem subtilmente
As sementes diminutas e subtis da vida
Porventura lá no alto da montanha tamanha
Que as prende as acolhe e lhes dá guarida
E eu efemeridade andante em tronco persistente
Teimosamente flutuo na corrente à deriva
As criaturas que esquecem a ligação à árvore mãe
Esfumam-se em fantasmagoria esquecida
Desprezando o elo a unidade que nos vincula a todos
A luz do amor nesta existência corrompida
👁️ 486
Este e Oeste
Dá-me a oportunidade de ter consciência
Deste sol amigo que nasce em cada dia
Esperança no tempo que indica o riso
Pois sem as montanhas iluminadas enlouqueço
Sem as praias quentes e os pés descalços na areia
Não faz sentido o meu próprio nascimento
Por isso esta gratidão com que te pressinto força divina
Transforma-se no meu alimento a cada hora a cada momento
O acontecer vertiginoso sobre o abismo da metamorfose
É incompreensível para as criaturas
Que apenas contemplam os seus pés
Entre o nascer e o pôr-do-sol solta-se um grito
Que antecede a contemplação a entrada no vibrar espiritual
Porque o escuro pode fazer amor com o luar
E outros cambiantes surgem cintilantes na suave escuridão
Fecho os olhos e os murmúrios dos elementos
Inundam-me a mente em reflexão
👁️ 310
Felicidade
Orienta-me os passos pelas estradas infinitas
Impregnadas de neve cinzenta onde o frio
Corta os sentidos deixa os animais desauridos
E as criaturas mais desprevenidas sem abrigos
Elucida-me nas encruzilhadas da vida
Nas decisões sem devaneios ingratos
Sem demoníacas ilusões
Para que o meu olhar recaia como dois faróis
Sobre os outros e o mundo como sóis
Abraço-te em estado de alma sereno
Como se a dádiva da vida bastasse em plenitude
Pois o milagre do acontecer requer sensatez
Aceitação desfrute entrega atitude
Retalho-me em felicidade e deixo correr
O rio da descrença para o mundo da escuridão
Distendo-me na alegria que prometi a mim mesma
Levanto o semblante para a lua e ergo-me mesmo em exaustão
Moldo em mim o castelo da paz onde permaneço
Mesmo na velocidade alucinante das criaturas
Em condição pedregosa eternamente errante
E nesta confluência do ser e do conhecer vai-se o tormento
E em reminiscências de estrelas longínquas
Inunda-nos em fogo o reconhecimento
👁️ 376
Comentários (0)
Iniciar sessão
ToPostComment
NoComments
Biografia
Ana Maria Oliveira nasceu a 17 de Fevereiro de 1960, em Portugal, no Alto Alentejo no distrito de Portalegre e concelho de Castelo de Vide.
Antes de completar um ano de idade veio com os pais viver para a zona de Cascais e aí tem vivido desde então.
Em 1986 finalizou a licenciatura em Filosofia na Faculdade de Ciências sociais e humanas de Lisboa. Licenciatura que lhe permitiu dar aulas de filosofia durante alguns anos.
Edita o seu primeiro livro de poesia em 2008 através da Corpos Editora “Grito de liberdade”. Este livro é uma forma de partilhar emoções e vivências, encarando a poesia como uma catarse. Dedica este livro a todas as mulheres, pela luta e determinação com que enfrentam as adversidades de uma sociedade que ainda manipula e escraviza.
Ainda no mesmo ano participa em duas coletâneas: Uma de Prosa e Poesia “A arte pela escrita” da editora Escritartes e a outra, “Poemas sem fronteiras” “Ora, vejamos…2008” Editora LULU de Leiria que faz uma recolha impressionante da poesia contemporânea. Nesta última Ana Maria Oliveira obtém o prémio da Menção honrosa com o seu poema “Farsa”.
Escreve no site de poesia Luso poemas onde tem parte dos seus trabalhos.
Faz uma edição de autor “Espírito Guerreiro” o seu segundo livro de poesia, em 2014.
Mantem alguns sites onde divulga a sua escrita.
Ultimamente mantem-se ligada ao projeto “Filosofia para crianças”.
http://paula-esperar.blogspot.pt/
https://www.facebook.com/pages/Estilha%C3%A7os-no-Caminho/355449187906566?ref=hl
http://www.assinaturaeletromagnética.blogspot.com
https://devirquantico.blogspot.pt/
Português
English
Español