Lista de Poemas

As Senhoras

A mata é escura, profunda e linda. 
As senhoras guardaram presentes para minha eventual vinda.
Vou de encontro a um chapéu dourado num verde pasto;
em seu corpo cauleoso, a chave... 
Metálico o gosto de seu composto; a chave é ingerida com deleite e gozo.
A porta encontra-se entre o Sol flamejante e as planícies ao longe; a linha que delineia o horizonte.
O dourado emissário rasga através de minha mente o tecido da realidade aparente.
As plantas não tem dentes, mas sorriem a mim como se boas vindas dessem. Os ventos sussurram presságios de festa, e as árvores acenam como se o que está ocorrendo soubessem. 
Corredores infinitos de beleza, navego no bote do intelecto em um oceano aberto. Antes invisível aos meus olhos, contemplo o campo morfogenético; as cordas d'onde o ambiente molda suas vítimas e seus seletos... Engano meu pensar que estou no controle desta jornada; contemplo um mar onde beleza nunca mostra-se escassa... A face das Senhoras...
As Senhoras mostram-se em diversas mais escalas. Vejo ainda em minha mente, por detrás de meus olhos; um cripto-Deus multifacetado que canta estas e mais informações em ondas e pacotes de amor cósmico.
Todo buraco na parede ou chão é um eterno mistério para uma criança, que despeja sua criatividade numa torrente de suposições; inunda seu ser, que não consegue evitar em ver e mexer. O intermédio entre o exterior e o interior é o gatilho para o desconhecido conhecer, o rio de mercúrio que leva ao ouro alquímico; o mágico portal de onde qualquer objeto transcendental pode-se puxar.
Então criança fui de novo, e dos deleites terrenos fui esposo. O aroma excêntrico da Cannabis pegou-me atento, ainda no vasto mato adentro. Entre os imensos bambus a fumaça se espalha, seus tentáculos circundam-me e seu perfume não me falha. Mas que doçura, que textura! Que estrutura... Suas flores, caules, nervuras. Um ode à planta que cura; que afina os limites entre vigília e sonho com ternura. Fonte de muitas ideias, apaziguadora de muitas dores, tecelã de conversas, amizades; amores. 
Ah, Senhoras... Teu sou amante, teu sou poeta, teu, sonhador infante.
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Ágape

Para ser doce; para ser Amor... Não é necessário o amável. 
O mesmo mel que encontro nas mulheres se mostra igualmente saliente nas flores de Hibiscus, de tão intenso vermelho que palpita-me o coração. 
O amarelo dos Girassóis Mexicanos sorri em vibrante alegria, sozinho, em meio a mata esquecida; pois não necessita de espectadores em sua virtude embutida.

Ninguém dá ouvidos aos rangidos dos bambus; aos sussurros dos ventos que falam através das árvores e nos cantam mensagens do pálido azul celeste.
Até quando iremos nos abster? 
Até quando nos esconder da luz cristalina que alimenta a Flora querida; que embebeda, energiza suas filhas através da Clorofila? 
Luz que desperta os pássaros, exortando-os a cantar melodias.

Se todas estas coisas não são Amor, tua posse e teu rancor; teu dissabor...
A casca vazia do que um dia foi vida;
Os pilares que sustentam uma egrégora agora vazia;
A covardia mesquinha da cama que um dia unia...
Me diga, Amor isto tu chamaria?
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Maus Bons Hábitos

Eu confesso que é difícil ter esperança, e consequentemente coragem para agir.
Vejo no seu, no meu, no olhar de cada um que habita aqui;
a dor, o peso, o resentimento por sentir
por um dia permitir
os sonhos de sair
da cabeça.

Na gaveta
os papéis de nascimento,
casamento; uma velha casca que um dia foi vida
e agora só trás tormento.
Ou mais más lembranças quando se põe na balança.

Nesse passo a Treva me alcança.
Não por que causo o mal;
mas observo-o acontecer enquanto calo-me
e sou calado.
A pergunta inoportuna, a reflexão oriunda da angústia...

...

Silêncio, as engrenagens...
Cimento...
Em sentidos e reflexos antigos.
Não se pode mudar, nem ouse pensar...
Em parar...
As engrenagens tem de girar...
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Para Minha Irmã

Talvez você não perceba mas está vivendo uma das fases mais importantes da sua vida. O Sol deixa o céu e você juntamente com ele deixa tudo para trás, fecha os olhos e deixa o mundo deslizar. Talvez nos seus sonhos você seja levada daqui para outro raiar, onde o mundo tem mais cores do que os prédios de concreto podem mostrar. E se de fato este lugar existe, pense que é você quem o sustenta assim que o visita; pois de fato é. Pense no Sol, pense na Lua; pense no curso das estrelas... Pense nos rios que correm, pense no sangue que circula em suas veias, em seu coração que bate, nos pensamentos e sentimentos que vem até você; pense no simples fato de existir, o que significa?
Pense que todas estas coisas que citei acontecem sem haver necessidade de alguém fazê-las acontecer. Você também está inclusa nestas coisas. Assim como a árvore dá frutos, o planeta terra "deu" humanos. O fato é que não sabemos qual a força que nos dá vida, então logo assumimos que exista um Deus que orquestra tudo e comanda todas as coisas. Mas ao invés de pensar nisto, pense nesta ótica; se todas as coisas que vem até você não são de sua escolha, e todas as coisas que vivem e existem o fazem por meio de sua própria graça; não é bobo que nós tenhamos de nos sentir fora de casa? Sentimo-nos assim por não percebermos (ou não darmos atenção) a harmonia e conexão que deixamos escapar entre os dedos de nossas mãos. O que as árvores exalam, você inala; o que você exala, as árvores inalam. Harmonia. Em seu corpo há milhares de micro-organismos que estão em uma intensa batalha, sem essa luta constante você adoeceria e morreria. Caos. Em um amontoado de fiapos de tecido nós vemos bagunça, Caos. Se usarmos um microscópio para vermos mais atentamente um dos fiapos desse amontoado veremos que é dotado de uma imensa ordem de outros menores fiapos que dão sua forma, como esperado, Harmonia.
Do mesmo modo podemos observar em nossas vidas um imenso leque de acontecimentos e coisas que nos fazem rir e chorar, experimentar de Caos e Harmonia. O que vem até nós não é de nossa escolha, mas o que fazemos com isso, sim. Você pode pensar em todas as coisas ruins que lhe aconteceram e se questionar o motivo de terem ocorrido, talvez a resposta nunca venha, mas veja bem. Um dia dois irmãos estavam passando por momentos difíceis na segunda guerra mundial, jovens e já longe dos pais, tinham de fugir de sua casa para não serem atingidos pelos bombardeios. A caminho da estação de trens, o irmão,mais novo e desengonçado em sua pressa, deixou um de seus sapatos perder-se na correria. A irmã, furiosa, xingou-o de idiota dizendo que já não tinham tantos pertences e certamente não tinham tempo suficiente para procurar seu sapato. Estas foram as últimas palavras que a irmã disse a seu irmão. A última vez que se viram. Chegada a hora de embarcar nos trens da estação, foram separados na confusão do mar de pessoas fugindo das bombas resultantes do regime alemão. Então a irmã tomada de remorso e culpa por refletir em como foi dura, pensou "Ele era meu irmão e aquelas foram as últimas palavras que disse a ele. Que era um idiota. Se ao menos eu pudesse voltar naquela hora...". Então desde este dia ela jurou que não importa quem seja, ela falaria com a pessoa como se fosse a última vez que fossem se ver, para nunca mais se arrepender. E realmente o fez. E teve uma vida bela onde retirou de todos os momentos o máximo que podia. Agora, imagine se esta mesma garota tivesse se entregado para o desespero e a tristeza? Ela para sempre seria vítima daquele sombrio dia. Mas ao invés disto, escolheu aprender com seu erro da melhor forma que pôde, o que foi até ela não foi de sua escolha mas o que ela fez com aquilo, foi. Com isso concluo que você não tem escolha das coisas que lhe aconteceram, mas o Sol ainda brilha lá fora, os pássaros cantam para sua luz. As plantas levantam suas folhas para seu calor, há vida, há amor... Não importa aonde você for.

Sempre existe uma saída, sempre existe um novo dia. Você pode tentar tantas coisas diferentes pois é muito jovem ainda, pode tentar novamente as coisas que já tentou e não deram certo também. E se não derem certo novamente, tudo bem. Tente outras. Nós precisamos errar para então acertar, os músculos precisam se rasgar para poderem crescer. Talvez não perceba mas as pessoas estão aqui para você, Eu, Gilvanice, Vinicius, Aldomon, todos por cima das palavras que não falam amam você através de atos. É difícil reconhecer, eu sei, mas o tempo e coragem que não tenho de falar tenho em escrever; e escrevi isto para você. Só para você, por favor, pense nas coisas que apresentei aqui. Caso não as entenda, tente de novo, e de novo até se cansar; mas tente tirar algo daqui.


Mantenha-se firme. Mantenha-se bem.
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Teatro Familiar

Hora de acordar,
todos se levantam.
Mulher, ponha minha comida
pois não tenho mãos,
ou pernas,
ou o amor de palha que esvaiu
com o primeiro sinal de chuva.


Para dentro vai
o mais rápido possível
através da fenda:
Vitaminas, proteínas,
o que mais você tem?


Raiva.
A mulher tem raiva
mas é cristã,
fiel,
e um dia sonha em juntar sua cruz a de Jesus no céu.


Isto a faz aguentar,
continuar.
E as vezes em meio a noite
ou lavando os pratos
onde pode refletir.
Reflete.
E as vezes quando há muito tempo livre,
sonha.


E sonha.
Ecos distantes;
vozes familiares;
amor fraternal,
materno, puro.


Como o coração da Garota;
um espírito tímido,
a Flor em meio ao esgoto.
Não quer mais olhar afora;
de canto no cômodo,
um quarto escuro;
debaixo das cobertas:
Luz,
um mundo abafado da dor.
Nos cantos... Brota a Flor.
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Vou morar no ar

Meu desejo não é só o de andar
Meu anseio é o de morar no ar
Vou correr para as nuvens e caminhar
Entre as correntes que entrelaçam os pássaros à atmosfera

Não irei sumir e sim me espalhar
Me espelhar na totalidade do sonhar
Beirar o limite daqueles cuja coragem é escassa
Andar no vazio onde a criação ganha asa
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Ode à Cova de Onça

Minha mente se dobra,
dá voltas diferentes agora.
Comunguei com a água barrosa;
após vários dias em cova.

Seu abraço absoluto em meu corpo escuro,
meus pulmões fizeram-me flutuar no transcendente fluído.
Subjulgado chorei pelo tempo de mil mundos.
Mil mundos em momentos, mil mundos em segundos.

As árvores sussuraram com som de chocalhos,
pássaros as serviam como vivos entalhos.
A sinfonia dos insetos com seus sons elétricos...
como presságios vivos de máquinas da era do concreto.

A natureza se codença em minha cabeça,
até de olhos fechados suas formas perduram na infinitude negra.
Suas formas me dão calafrios de beleza,
infinitas expressões da criação no planeta.

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Um quadro vivo chamado Floresta

Na floresta escalonava-se uma lagoa.
Onde negras rochas estendiam-se em proa.
Um fino fio d'água banhava-as,
assim como a meu corpo; acariciava-as.

As árvores famintas, aglomeravam-se engolindo todo o Sol.
Douradas partículas de folhagem deitavam-se ao redor da água marrom barro,
que em seu fundo desenhava um labirinto encriptado em seu mistério gelado.
E Eu era ali, dentro da água, em meio às rochas, não mais indo até tudo, tudo o que Eu era, em minha volta.
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Beija-Flor

There in the forest, there was I.
Mesmerized by the hummingbird's fly. 
Smoothness in the movements, tremendous activity inside. 
There was I, watching it filling the air and filling my mind.
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Cointidentia.

Como é humorado o modo como emaranhas.
Tuas linhas não são apenas contínuas,
são lindas e estranhas.
Graciosas, inesperadas, manhas.

Em coincidências ressonas.
A nós, alicias.
Ao cosmo, comandas;
em todos, danças.
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