Lista de Poemas

Sopa de Confetes

A noite de sexta estava animada
Da cadeira meio bamba no bar
Percebi sua chegada à rodinha de amigos
- A observação é meu fraco, me perdoem-
A figura imponente e orgulhosa
Colecionava beijos e abraços calorosos
Que dividiam lugar com as perguntas entusiasmadas
Como está sua nova produção?
E aquela participação especial? Foda viu!
E que performance a sua. Sinto vontade de chorar!
Perguntei aos mortais que me acompanhavam
Que àquela altura estava tão bambos quanto a mesa
Se conheciam tal celebridade que estava entre nós
Nenhum deles soube responder
Ainda assim pensei em pedir uma foto
Ou mesmo um abraço
Porém, tão repentina quanto a chegada foi sua partida
O que não me deu tempo de aproximação
Mesmo assim fui tentar descobrir quem era a criatura
- A curiosidade também é meu fraco, me perdoem-
Cheguei mais perto da mesa como quem não quer nada
E os risos tomavam conta do espaço
Todos ali estavam muito orgulhos de sua maldade
De ter alimentado com uma sopa de confetes
Aquele pequeno cego de ego infinito
Que agora acreditava estar bem nutrido.
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Brandura em carne viva

Espelhada no seio da tua íris verde
Revela-se minha alma despida
Não se vê a brandura das ninfas
Só a carne viva dos condenados
Sob a luz difusa do abajur
Ecoa da minha fala herege
Uma metafísica de certezas
Típica de marginal
Quando tua visão desliza e escurece
Prendo-me a ti e te transformo em alicerce
Furto teus olhos, braços, mãos e pernas
Cheiros, gostos, falas e cabelos
Me construindo a sangue frio
Sujeito humano.
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Sentença

Todos os dias lacero minhas feridas como quem provoca a morte
Abraço o jorro do sangue e me embriago com o cheiro do enxofre
Na contramão dos rebanhos faço do inferno meu refúgio
Gargalho com os dizeres grotescos de íntimos demônios
Danço ao som do escarcéu das vozes que rogam o perdão dos seus pecados
Almoço, janto e me farto com cada agrura de agonia que ali habita
Assim o veneno me integra e me faz entidade que perverte almas castas  
Fortalece as minhas veias e alimenta uma existência dissimulada
Temer tantos diabos e desgostos não me forjaria Ísis
Você leitor puro e de bom coração se sentir pena da minha condição  
Fique à vontade para rogar a Deus por minha alma
Mas não espere esforço ou benesse de minha parte
Sou sujeito que escolhe viver uma sentença avessa que existe pelo caos
Assim sigo resistindo ao fatigante e aparente cotidiano
Fingido de promessas de bem querer
Entre afagos, abraços, sorrisos e suspiros engodados
Suplicando a cada toque pequena grama do líquido mortífero da existência
Tenho comigo sempre uma boa dose a oferecer aos abatidos
Qual seu compromisso para essa noite?
Terei todo o prazer em servir a sua taça.
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Eu, Manifesto

Minhas vozes que silenciam são todas órfãs
Se por acaso te interessar saber quem as pariu
Te direi que são frutos das esperanças do dia
E dos planos insones da madrugada
Apesar da aura de fragilidade
São cheias de vontades e de dúvidas
Me provocam a todo momento
Buscando saber se são genuínas
Se são uma cópia barata dos versos do poeta
Ou se são forjadas a ferro para ser o que esperam
Dentro dessa confusão uma coisa tenho como certa
Sei que elas querem ganhar o mundo
Pena que a nudez ainda é indesejada
Seria uma entrada e tanto surgir no meio da praça
Despida de todas as correntes
Vociferando as agruras que vivem cativas
Que tem como único fim me torturar
Tudo isso é visceralmente bizarro
Aqui as prisioneiras que aplicam a pena
Não faz sentido
Mas quem disse que precisa
Agora tento escapar desse labirinto
E enquanto isso não acontece
Deixo aqui em linhas tortas e a pouca tinta
Um anuncio do meu futuro manifesto
E espero, espero, espero...
Com toda a paciência coagida
O dia destinado para a sua liberdade.
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Tempestade no Terraço

A previsão para o fim do dia era de sol
Mas o vento forte que invadia o quarto
Denunciava que o tempo estava formado
Tiro as roupas do varal
Fecho todas as janelas
Confirmo que o celular está carregado
E separo por precaução um maço de velas
Pronto
Estou segura para enfrentar a tempestade
Pensei que desfrutaria dessa sensação
Mas que nada
A sombra dos meus quase trinta anos
Nunca me deixa em paz
É companhia constante, renitente e curiosa
E agora quer saber o que causa esse meu medo da chuva
Não tenho nada certo pra responder a essa provocação
Mas palpites esses tenho aos montes
Podem ter sido os comprimidos que já tomei
As doses de álcool que invadiram meu sangue
Os amigos eternos de uma semana
As horas livres convertidas em trabalho
Ou todas as decepções amorosas
Esse coquetel que é a vida adulta
Tem um efeito colateral desgraçado
Que destrói a cada novo gole
Um pouco da coragem que era tão nossa
Nos tempos de criança
Querem saber
Hoje vou esperar a tempestade no terraço
E quando ela cair vou sair e andar pela calçada
Ignorando os desejos da minha sombra
E os olhares de julgamento de quem no conforto de casa
Desfruta em belos cálices o sabor insosso da vida adulta
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Vida de Inseto

A cerveja que tirei da geladeira
não parece ter me caído bem
da minha rede armada no terraço
percebo um caminho de insetos
levanto
vejo mais de perto
e só me vem um pensamento
como deve ser doido ser formiga!
cruzar esse pedacinho de parede
é como conquistar um mundo inteiro
uma gota de chuva
o quadro na parede
ou os meus gatos
assumem a forma de temporais,
grandes construções
e terríveis perseguidores
virando vilões de uma saga heroica
cada migalha deixada por alguém
é agora maravilhoso banquete
e o melhor de tudo
na colônia todos são iguais
tem a mesma importância
trabalham como grupo
unido, coeso e homogêneo
acho que deve ser foda esse trabalho
acordar
servir a rainha
carregar comida
proteger o formigueiro
acordar
servir a rainha...
um ciclo eterno
enfadonho
desgastante
e ainda assim invisível
volto pra realidade
meio bêbada é verdade
rindo pra parede
porém orgulhosa e
infinitamente satisfeita
por ser gente
que não se contenta
com poucos espaços
ou migalhas
com o trabalho pra rainha
ou a mentira que é a cortesia
dou de costas
entro em casa e
sigo pra vida real
imaginando como deve ser libertador
pro tanto de gente
que está nesse mundo
festejando um faz de conta
fazendo às vezes de
formiga.

 

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Comentários (1)

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marciobar
2020-02-02

Parabéns...sucesso!!