Lista de Poemas

A convivência com os MENTIROSOS

“Embora pareça bobagem, as conversas do primo Joel, carecem de peneiragem. Muitos fatos ele aumenta e da verdade se afugenta. Pra entender, é preciso de prática e adoção de uma tática.  É questão de CALIBRAGEM, com trinta por cento de defasagem, a gente fecha a contagem.  Quando ele fala de dez, numa pesca de traíra, a gente já entende sete, descartando os três da mentira. Pior é sua irmã do meio, que precisa de  mais calibre, na taxa do manuseio; dela só se aproveita a metade, e o resto vai pro escanteio. No  convívio com o sujeito, vai se pegando o jeito,  identificando o trejeito e descartando o rejeito.”

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Política & Trambique

A política brasileira é um campo fértil para dois tipos de indivíduos: àqueles que estão perdidos na vida e àqueles que almejam perder-se nela.
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Síndrome de CONCEIÇÃO - vive numa realidade paralela

Tem muita gente com a SÍNDROME DE CONCEIÇÃO – vive no morro a sonhar, com coisas que o morro não tem. Pra ter regalia de OFICIAL, não se presta concurso pra PRAÇA. Não se enche a despensa vazia, acordando ao meio dia; tudo que é bom tem seu preço,  nada é entregue de graça.  A vida do bancário é diferente da do banqueiro, um se mata no trabalho, o outro esbanja dinheiro.  A REALIDADE nem sempre é bela, ainda que muitos prefiram, encará-la de forma paralela.
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Tia Márcia e seu gato inútil

“Tia Márcia ganhou um gato, que já veio batizado pelo nome de TAPETE (anotado num bilhete). TAPETE tem um topete, e o topete do TAPETE fica todo arrepiado em virtude de um cacoete. Uma bola de gorducho,  passa o dia no chão deitado, estirado e enchendo o bucho. TAPETE não come rato, a não ser servido no prato, com um bom carboidrato ( já caçado, esviscerado, temperado e desossado).  Quando a fome lhe acomete - e isso é muito frequente - TAPETE vira de lado,  miando estrondosamente. É um gato preguiçoso, que nunca atende ao chamado, não gosta de visita, nem de ser acarinhado. Tia Márcia apegou com o bicho, diz que lhe faz companhia. Nem pra ela ele olha - dorme, come, bebe e mia. “ 

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As fases da vida descritas em metáforas

“Sem querer abusar da ironia, digo a você que acaba de completar 40 anos: há um paradoxo naquilo que te ensinaram. Não existe nenhuma evidência de que você tenha atingido a metade da vida. Provavelmente, essa metade vindoura será menor que aquela já consumada. Vou lhe explicar por metáfora: sabe aquela laranja que a gente descasca e chupa ? Então, raramente ela é cortada meio a meio.  Ainda que pareça pleonasmo, ela normalmente divide-se em uma parte maior (que representa a vida até os 40) e a tampinha que representa o futuro.  Também não acredite que depois dos 60 o vivente encontrará a `melhor idade` - esse termo é uma perífrase, que os linguagistas adotaram por puro eufemismo. “
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A toga e a balança avariada

“A  toga é o último bastião  que sustenta a democracia.  Quando o povo perde a crença no judiciário, a lei se submete ao latifundiário e ao monetário;  a justiça vira um conto do vigário. O executivo abandona sua liturgia e o  legislativo cede à demagogia, cabe à  magistratura corrigir qualquer desventura. O juiz com a balança avariada transforma a judicatura em piada.  “
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Violência policial - Cíclopes modernos.

Pedro é policial numa das regiões mais violentas do mundo – a América Latina. Juntamente com o Caribe corresponde a apenas 8% (oito por cento) da população mundial, mas é a fatia planetária onde ocorre um terço  dos mais de 437 mil homicídios registrados anualmente.

De origem proletária, perseguiu seu sonho de se tornar um agente da lei.

Ele vive da segurança em meio à insegurança; sabe que a probabilidade de ser morto em um assalto chega a ser 6.000% (seis mil por cento) superior à de um cidadão comum. Também sabe que o número de roubos no continente onde vive é absurdamente alto.

Quando entrou para a polícia lhe prepararam para a guerra. Os testes físicos eram rigorosíssimos. Teve que fazer curso de sobrevivência na selva ficando quatro dias sem se alimentar e tomando água da chuva. Os sentimentos mais primitivos da evolução humana afloraram do seu interior naqueles dias.

Nos tempos de preparação da academia foi submetido a todo tipo de humilhação. Eram trotes, pancadas, xingamentos, castigos e até sessões de tortura.

Foi doutrinado na certeza de que aquele que conseguisse passar por tudo isso estaria pronto para cumprir sua difícil missão e suportar os desafios da carreira.  Algumas pessoas também lhe disseram que tudo aquilo iria lhe causar traumas violentos e fazer com que ele descontasse no cidadão parte do que sofreu no seu treinamento.

 Pedro odeia o discurso de alguns sociólogos que dizem que o Estado treina uma polícia para a guerra e a coloca para trabalhar em atendimento ao cidadão.  Na sua concepção, a lida diária correndo riscos da profissão e enfrentando criminosos com fuzis e metralhadoras demonstram um estado de guerra urbana.

No mês passado ele trocou tiros e matou o assaltante de um supermercado. Há aproximadamente  seis meses ele auxiliou no parto de uma moradora de rua cuja criança nasceu dentro da viatura enquanto era levada para a maternidade pública. Pedro não é Deus, mas já trouxe uma pessoa à vida e levou outra à morte.

No bairro onde trabalha o índice de homicídios é muito alto. Em quase todos os seus plantões sempre atende a pelo menos um homicídio. São tantos os atendimentos que ele já não sente mais a compaixão pelo defunto – virou rotina, é algo muito normal.  Costuma dizer que o ruim desse trabalho é no dia que tem que enfrentar algum homicídio cuja vítima é criança; isso lhe estraga o dia, embora tenha medo de que a rotina também lhe transforme em um ser indiferente a um cadáver infantil.

Leu em um livro de autoajuda que o ser humano para ser considerado normal precisa despertar e ter o controle de todos os sentimentos (amor, ódio, paixão, compaixão, raiva, alegria, inveja, orgulho, piedade  ...).  Alguns desses ele já não tem, outros não consegue conter e o pior é que alguns se manifestam em ocasiões erradas.   Sua engrenagem cerebral de sentimentos parece estar um pouco desajustada ultimamente.

O meio em que vive não é nada favorável. Lida com pessoas alcoolizadas, entorpecidas, psicóticas, criminosas, vítimas chorando, gente gritando, famílias brigando, gente lhe xingando etc.  A jornada de doze  e às vezes de vinte e quatro horas corridas também lhe confunde o relógio biológico.    Quando trabalha à noite sente sono, quando termina o turno e vai para casa descansar tem dificuldade em dormir (fica pensando no próximo plantão).

A vida conjugal também não anda nada bem, mas isso é visto com normalidade, afinal, dos colegas de profissão ele é o único que ainda está suportando o primeiro casamento.

Alguns sinais de estresse já apareceram como a hipertensão e a diabetes; “nada preocupante” reponde ele, “é coisa do dia da dia e da alimentação de rua”.   Nos turnos de trabalho se alimenta  em lanchonetes ou restaurantes que dão descontos para  policiais. 

Nas madrugadas sombrias, Pedro e os demais ocupantes da viatura são a única presença e a representação  física do Estado.  Não tem julgador, legislador, fiscalizador nem consultor – os problemas surgem e o Estado age pelas mãos de Pedro e seus colegas de trabalho.

O salário não é grande coisa, mas ajuda a manter um padrão de vida diferenciado no bairro pobre onde mora. Ele se orgulha de ser  tentado à corrupção todos os dias e nunca ter cedido a ela.

Nos telejornais e nos sites de notícias aparecem analistas econômicos dizendo que Pedro e os demais servidores  são os responsáveis pelo desastre das contas públicas. Pessoas como ele são consideradas privilegiadas e que se aposentam cedo demais. Nos intervalos de cada programa surge o patrocinador: sempre um banco, uma financeira ou um operador de fundo de pensão que lucram fortunas emprestando dinheiro ao governo com juros estratosféricos.

Ontem à tarde o parceiro de trabalho de Pedro foi convocado para fazer a segurança do parlamento onde estavam sendo votadas as novas leis que regridiriam  o regime previdenciário dos funcionários públicos.  Havia um grande protesto nos acessos à casa de leis. No tumulto eles empurraram o amigo de Pedro que sacou a arma e atirou a esmo atingindo fatalmente um professor que lutava por seus direitos. 

Hoje o noticiário só fala desse assunto. Curiosamente, algoz e vítima estavam socialmente no mesmo lado – ambos seriam prejudicados com as alterações legais.

Provavelmente o policial continuará preso por mais algum tempo e será expulso do serviço público. Suas perspectivas futuras não são nada boas.

Pedro foi visitar o amigo e passou a refletir sobre os acontecimentos: está em dúvida sobre qual lado é o certo e qual é o errado.

Na expectativa de que Deus lhe desse uma palavra nesse momento, abriu a Bíblia aleatoriamente e leu um versículo  em 2ª Timóteo 4:7-8:

“ Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.  Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia ...”

Está confuso sobre qual seria o “bom combate”; como diferenciar as batalhas que devem ser  enfrentadas e as que não compensa combater ?

Pedro vivencia a saga de “Dom Quixote de La Mancha” imortalizado por Miguel de Cervantes. Ficou  mentalmente transtornado pelo descompasso entre seu idealismo e sua realidade de vida.

“...Enfrentar o inimigo invencível,

Tentar quando as forças se esvaem,

Alcançar a estrela inatingível:

Essa é a minha busca.” (Dom Quixote)
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Em busca de uma vida frugal

RINÓPOLIS : “De Beata Vita”.

As pessoas labutam diariamente em busca da vida perfeita, do corpo perfeito, da saúde perfeita, da família perfeita e de tudo  mais que representa o ápice na sociedade.

O doutor Gileade era a síntese do que seria um ser humano invejável.  Com 57 anos de idade, era desembargador em Brasília e gozava do auge da saúde física e mental. Poderia ter se aposentado, mas preferiu continuar trabalhando para manter o status do cargo  e os benefícios complementares que faziam sua remuneração da ativa saltar às alturas.

Sua família era indelével:  a esposa e companheira de mais de 30 anos, e um casal de filhos. A filha mais velha era promotora de justiça e o caçula médico geriatra casado com uma endocrinologista. Três netas complementavam a continuidade da geração.

A típica família de propaganda de margarina. Residência num condomínio de luxo, carros importados, férias nos lugares paradisíacos, refeições em restaurantes com estrela “Michelin”.

Num domingo ensolarado de outono, Gileade levanta-se da cama e observa sua esposa que continua repousando. Vai à cozinha preparar o café e vinte minutos após compor a mesa, retorna ao quarto para avisar que o “breakfast” está servido.

Chama e ela não responde. Toca em seu ombro e sente que o corpo está gélido e sem vida.

Desesperado, ele aciona o atendimento médico de urgência. Era tarde demais. Ela morreu dormindo, ou como diria um vereador brasileiro que virou meme na internet “dormiu e quando acordou já estava morta”.

Foi um dos velórios mais concorridos da capital federal. A nata da sociedade se fazia presente. Àquela altura, já havia uma meia dúzia de mulheres despertando interesse pelo novel viúvo -  desde mocinhas na casa dos 25 anos, balzaquianas  e até uma prima da falecida que já rompera o marco da terceira idade.

Casar-se com o desembargador era como ganhar na loteria. Era garantia de vida tranquila, confortável e de glamour social.

Nos dois primeiros dias após o sepultamento, houve a companhia dos filhos e netas e após isso, cada qual seguiu seus passos, mantendo apenas o contato por aplicativos de mensagens.

No final do mês, ele teria que tomar uma decisão difícil. Estava prestes a concluir um curso de pós-doutorado em direito público na Universidade de Salamanca e as passagens já estavam compradas em nome dele e da esposa. Seguir os planos originais ou desistir da viagem:  era a dúvida que lhe martelava o cérebro.

Mesmo a contragosto, tomou o avião até Madri. Pernoitou no hotel que a esposa tinha reservado, no bairro Chamberí. Na manhã seguinte, foi na locadora buscar o carro,  conforme previamente programado.

No estrada rumo à Salamanca, tinha a intenção de almoçar em Ávila. Restando menos de 40 quilômetros para chegar ao restaurante pretendido, ele não percebeu  e passou sobre um objeto metálico caído na pista.

Estourou o pneu e quase capotou o veículo. Parou no acostamento e foi pedir socorro num sítio à margem da estrada.

O morador idoso lhe prestou auxílio e o levou para sua casa. Gileade chorava sem parar, como uma criança perdida. Seu choro não tinha uma explicação certa: era pelo acidente do carro, pela perda da esposa, pela dúvida em continuar o pós-doutorado, pela falta de rumo na vida, pelo medo de cair em depressão ...

O espanhol era Alfredo, que morava naquela pequena propriedade com o seu filho, este tinha um certo grau de deficiência mental.  A granja   fora herdada dos avós, transferida aos seus pais e seguiu a linha sucessória.

A casa feita de pedras tinha mais de cem anos. Após percorrer o mundo, Alfredo decidiu voltar às origens e viver no estilo minimalista na propriedade da família. Utilizava apenas o necessário para viver bem. Tinha uma camionete na garagem, mas transitava com uma bicicleta com a qual se deslocava até o povoado de “Ojos-Albos” para comprar mantimentos e visitar os amigos. Fazia questão de ajudar os necessitados.

Parece que os astros convergiram naquele momento. Um desembargador que estava perdido e precisando de ajuda encontra um altruísta disposto a lhe acolher.

Gileade desistiu do curso e ficou ali por mais de uma semana. Trabalhava na terra e visitava o vilarejo;  às vezes a pé, e em outras vezes de bicicleta.

No retorno ao Brasil,  entendeu o propósito da viagem e entendeu que Alfredo fora um anjo colocado em sua vida para lhe mostrar o caminho da felicidade.

Pediu aposentadoria e reuniu-se com a família. Explicou que precisava de uma nova razão para viver.

Dividiu o patrimônio em cinco cotas e transferiu cada uma para filhos e netas. Guardou para si apenas o dinheiro de um dos carros, que foi vendido, e de um investimento que possuía em títulos do Tesouro Nacional. Nem os móveis e utensílios da casa lhe acompanhariam na nova jornada.

Comprou um carro básico com seis anos de uso, colocou nele algumas roupas e objetos pessoais e tomou rumo ignorado.

Transformou-se numa espécie de andarilho, mas com algum tipo de conforto.

Tirou a barba que era sua marca registrada e apagou todos os registros em redes sociais. Em princípio, sonhava em aportar em alguma cidadezinha no estado de Minas Gerais.

Andar sem rumo pelas estradas tinha uma grande vantagem: podia se perder à vontade porque ele não sabia qual seria o destino. Quando sentia fome, parava em algum ponto simples na beira do caminho e ali mesmo lanchava e às vezes tirava uma sesta -  à sombra de alguma árvore.

Já havia atravessado o estado das Minas Gerais, quando avistou uma senhora humilde com uma criança de colo pedindo carona às margens da rodovia SP-425.  Seu projeto de vida era ajudar as pessoas e ali havia alguém necessitando.

Parou seu Renault Clio e abaixou o vidro do passageiro. A mulher pediu carona dizendo que a filha bebê estava queimando de febre e precisava ser levada a um posto de saúde para ser medicada.

O local mais próximo era a pequena cidade de RINÓPOLIS, no estado de São Paulo. Ele deixou a mãe e a criança na porta do posto de saúde e deu-lhe a quantia de duzentos reais em dinheiro - suficientes para a compra de remédios e para pagar um táxi de retorno.

Já passava das 16 horas e  ele decidiu hospedar-se num hotel popular no centro da cidade. Guardou os pertences no quarto e foi sentar-se na praça do outro lado da rua. As pessoas lhe cumprimentavam, mesmo sem conhecê-lo, desejando boa tarde e perguntando como ele estava.

Parecia ter encontrado o local ideal, para manter o anonimato da vida e buscar uma rotina simples.

Conheceu pessoas, inclusive um corretor informal (desses que atuam sem registro no órgão oficial) e que coincidentemente,  lhe perguntou se queria comprar uma casa naquela cidade. Gileade entendeu aquilo como uma mensagem divina.

Foi conhecer o imóvel que ficava a poucas quadras dali (aliás, tudo naquela cidade ficava a poucas quadras). Era uma casa de alvenaria construída na década de 1950, que não recebia pintura e reforma há pelo menos uns trinta anos. Ficava a cerca de 200 metros da praça central, na rua São Paulo, numa baixada onde aos sábados acontecia a feira livre dos produtores agrícolas. 

Um terço do dinheiro que reservou para si,  foi  suficiente para comprar, reformar e mobiliar o imóvel.

Comprou uma bicicleta e incorporou-se à rotina dos moradores. O Clio ficava escondido na garagem fechada.

Todos os dias acordava pela manhã e ia pedalando rumo à padaria. Comprava uma dezena de pães (franceses) e pedia para encher sua caneca plástica com café. Atravessava a rua e sentava-se calmamente no banco da praça, onde tomava o café e comia um dos pães. Outros dois ou três, ele jogava de forma esfarelada sobre o gramado, para atrair e alimentar os pássaros. Todo esse ritual demorava quase uma hora, e ao mesmo tempo ele meditava e tomava vitamina D na forma solar (quando não chovia).

Os pães que sobravam, ele mantinha ensacados e pedalava até o bairro mais pobre da cidade, até encontrar um transeunte necessitado que os aceitava receber.

Arrumou uma diarista que limpava a casa e lavava suas roupas uma vez por semana. Adquiriu um computador onde passou a escrever e a comunicar-se com os familiares todos os dias. Aboliu o uso do telefone e do relógio.

Dormia quando tinha sono, comia quando tinha fome.

Passou a frequentar o grupo de oração da Renovação Carismática Católica. Chegava de bicicleta e com roupas simples. Ninguém imaginaria que aquele senhor anônimo era alguém tão importante na capital da república.

Quando alguém perguntava seu nome, ele respondia:

- José.

O nome mais comunal da população brasileira ajudaria a esconder sua identidade.

Virou um observador social e estudava atentamente o comportamento daqueles habitantes. Usou esses conhecimentos para escrever dois livros.

Sempre que alguém pedia oração no grupo da igreja, ele ouvia atentamente e buscava uma forma de ajudar, sem ser identificado.

Em um dos cultos, uma senhora clamava desesperadamente por sua mãe, que precisava de uma consulta e de exames cardiológicos;  dizia que se fosse esperar pelo poder público, iria demorar vários meses.  Gileade (ou José) pegou seu veículo na manhã seguinte e se deslocou até à cidade de Marília, onde encontrou uma clínica de cardiologia. Pagou o equivalente a uma consulta e a um pacote de exames e exigiu que lhe entregassem um recibo na forma de “vale procedimento”. Retornou à comunidade e entregou ao padre,   pedindo a ele que procurasse àquela senhora que havia pedido oração e lhe desse os encaminhamentos.

Sentia-se bem em confessar ao padre que sabia da sua verdadeira identidade. O líder religioso passou a abençoar pessoas através dele. 

Foi assim que o menino Gabriel recebeu uma bicicleta nova em sua residência;  dona Margarida ganhou uma geladeira de duas portas e seu Mário que estava desempregado viu suas contas de água e de luz serem quitadas. Outras  dezenas e dezenas de  moradores tiveram seus problemas saneados.

Um dos problemas mais graves das cidades pequenas é a fofoca. Manter a identidade secreta de super-herói, estava ficando cada dia mais difícil.

Todos queriam saber onde o padre arrumava tanto dinheiro para presentear a comunidade. Houve quem o caluniasse, dizendo que ele estava encobrindo algum chefão do crime organizado.

Um vereador mais esperto, mandou circular a informação de que era ele quem atendia os pedidos dos moradores.  Pagou para um locutor de rádio fazer a propaganda de forma transversa. O radialista dizia que sabia que era o vereador quem pagava, mas que o vereador jamais admitiria isso em público, porque o propósito dele era ajudar anonimamente.

A notícia extrapolou fronteiras. Começaram a chegar caravanas de pessoas na cidade, com bilhetes de pedidos endereçados ao padre. Multiplicaram o número de exploradores.

Certo dia, Gileade soube que dona Joana tinha sido abandonada pelo marido com duas crianças para cuidar, sem ter aonde morar. Foi ao cartório, fez um termo de doação da casa para ela e lhe entregou as chaves com os móveis dentro.

Na madrugada seguinte, Gileade sumiu da cidade com seu Clio, suas roupas e seu computador. Ninguém sabe de seu paradeiro.

O padre não revela o mistério, por conta da obrigação do sigilo em confissão. Os eleitores do vereador, reclamam que ele parou de dar presentes. Dona Joana, insiste em dizer que o anjo que habitou na cidade, era o proprietário  anterior da casa onde mora. 

Coincidentemente, o contraventor do jogo do bicho, conhecido como  Bento Maia, foi preso naquela semana em que Gileade foi embora. Parte significativa da população credita a ele os benefícios entregues de forma anônima, e dizem que se a polícia e a justiça não tivessem agido, o povo estaria muito mais feliz, atendido em suas necessidades.

Ao sair da cadeia, Bento foi assassinado na porta de sua chácara,  a mando de um banqueiro rival.  O local onde caiu alvejado, virou ponto de romaria com a colocação de flores e velas acesas.

O dono da barbearia, localizada próxima da igreja matriz, insiste em dizer que seu filho foi curado de gagueira, após fazer uma promessa a Bento Maia. Esse milagre já rendeu pauta na rádio, sites de notícias e no jornal impresso da região.

O padre, coitado, tem que assistir a tudo sem poder dizer a verdade. O sacramento o impede revelar os fatos. 

Ao povo,  os seus heróis imaginários.

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Sobre a física e o sofrimento

Não tema a QUEDA, porque ela não fere ninguém. O que a física descreve como perigoso, é o  impacto da desaceleração.
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DIÁLOGO ANTIVACINA

Dois amigos do movimento ANTIVACINA se encontram nas redes sociais:

De Portugal, Joaquim escreve:

-  “Ô raios, aqui em Portugal já estão mandando mensagem no celular  convocando pra tomar vacina. Não sei o que faço ! E com agravante do vírus ser inativado. Se é inativo, como é que vai ativar algum benefício ?”  

 - “Corre e vem pro Brasil” – digita José.

Joaquim, responde em seguida:

- “De que adianta, se aí já decidiram que a imunização será obrigatória ?”

José redige explicando:

- “Rapaz, aqui é o Brasil. O cara que que ia comprar as vacinas nem fez a encomenda. A fábrica de seringas não foi sequer procurada. Só depois que elas estiverem em estoque  é que vão lembrar das agulhas.  O  encarregado de pagar as compras não reservou o dinheiro. Quando tiver tudo na mão, ninguém sabe como vai ser transportado. Se precisar de freezer, não tem nem caixa térmica. E só depois de resolver tudo isso é que vão detectar a falta de pessoal e de estrutura no SUS. Os dois principais políticos incumbidos da solução, um viajou de férias pra Miami o outro diz que não tá dando bola pro problema. “

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