Manoel de Barros: o poeta das insignificâncias
Há poetas que constroem catedrais de palavras. Outros que erguem monumentos de ideias. Manoel de Barros, porém, escolheu um caminho diferente: fez da poesia uma cabana de gravetos, um quintal de infância, um pátio onde brincam os insetos, as pedras e os trapos da linguagem.
Passou a vida no meio das coisas pequenas. Foi se encantando com latas amassadas, caracóis, lesmas, sapos e gravetos. Para ele, o que o mundo descartava era matéria-prima de assombro. Não se interessava pelas grandezas, pelos feitos grandiosos que enchem jornais. Seu chão era o miúdo, o inútil, o desprezado.
A infância como território
Ainda menino, olhava para o mundo como quem descobre. Havia nele um espanto natural, uma inocência cultivada como quem rega plantas no quintal. Sua mãe percebia isso e reparava o menino com ternura.
Certa vez, com a sabedoria das mães que pressentem o destino dos filhos, disse-lhe:
“Meu filho, você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Vai encher os vazios com as suas peraltagens.
E algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!”
E assim foi. A mãe estava certa: Manoel fez da vida um exercício de carregar água na peneira. Sempre tentando reter o inapreensível, a beleza que escorre, os instantes que se perdem.
O fado do poeta
Ele mesmo confessou, em um de seus arroubos de desimportância:
“Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.”
Esse fado, longe de ser uma limitação, era sua força. O não saber abria espaço para o encantamento. O nada, para ele, era uma mina secreta onde podia cavar sentidos. E a falta de conexões com a realidade não o afastava do mundo, mas o aproximava das brechas, daquilo que a realidade oficial não alcança.
O poder das insignificâncias
Num tempo em que ser poderoso significa acumular riquezas ou mandar em outros, Manoel oferecia outra régua:
“Poderoso, para mim, não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).”
Essa inversão é o coração de sua poesia. Enquanto muitos valorizam o excesso, ele elogiava a sobra. Onde outros buscavam o eterno, ele preferia o efêmero. Sua grandeza estava em devolver dignidade ao que parecia não ter valor.
O imbecil emocionado
Por essa visão, Manoel foi chamado de “imbecil”. E, ao contrário de se ofender, respondeu com doçura:
“Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.”
Esse gesto resume sua postura diante da vida: a humildade, o riso despretensioso, a gratidão até pelo que poderia soar como insulto. Manoel sabia que a poesia não é para todos. Mas para aqueles que se permitem, ela é travessia.
A invenção das palavras
Sua poesia não era apenas olhar o pequeno, mas também brincar com a linguagem. Ele entortava o significado das coisas. Criava verbos, desmontava frases, fazia da gramática uma caixa de brinquedos.
Quando dizia que “a reta é uma curva que não sonha”, estava, de fato, desafiando as formas rígidas de ver o mundo. Para ele, a imaginação era a verdadeira geometria da existência.
A mãe e a profecia cumprida
O menino que a mãe olhou com ternura e pressentiu poeta cumpriu, linha por linha, a profecia. Viveu como quem carrega água na peneira: em estado permanente de tentativa, sabendo que tudo escorre, mas insistindo em reter o instante.
Encheu os vazios com suas peraltagens verbais, seus despropósitos, suas invenções. E, como a mãe predisse, foi amado por isso. Amado não por todos, mas por aqueles que encontraram em suas palavras um modo novo de respirar.
O legado de Manoel
Manoel de Barros deixou um legado que não cabe em estantes, mas em quintais. Sua poesia nos ensina a enxergar beleza no que sobra, poesia no que se perde, grandeza no que é mínimo.
Ele mostrou que a vida pode ser reinventada quando se olha com olhos de infância. E que ser poeta não é falar do sublime, mas descobrir o sublime escondido naquilo que o mundo chama de nada.
Manoel nos deixou o exemplo de que o essencial não é compreender, mas se encantar.