João António

João António

n. 2004 PT PT

n. 2004-07-23, Granja

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A desilusão do pai

A desilusão, quando dita, mata-nos por dentro,

principalmente quando é dita por um pai.

Mata-nos por saber que pode não ser verdade,

e que se for, é a maior atrocidade. 

Mata-nos ainda mais se pensávamos estar a ir bem

quando para ele não passamos de algo que não o segue.

Mata-nos ainda mais quando o respeitamos mais que tudo,

e ele, raivoso, nos aponta como um fracasso.

Mata-nos ainda mais por dentro. Mata-me.

 

É uma autodestruição, uma aniquilação do filho ingrato,

mata-se o menino que admirava o pai.

Mata-se esse menino que admirava os ideais dele,

cria-se um rapaz sem coragem, amedrontado.

Revolto pela revolta que o pai lhe dá,

o nojo, a fúria desmedida da qual não tem culpa.

 

Morremos todos nós, crianças mimadas por estes pais do sacrifício,

deram tudo para nos dar tudo e depois, 

quando tinham tudo nas mãos,

nos culparam por termos tudo graças a eles. 

Culpam-nos da sua própria conquista,

como filhos fracos desta que é uma vida sem sentido;

quando percebemos que nunca seremos como eles,

nunca os impressionaremos porque, ao contrário deles,

sempre tivemos tudo.

 

12 de agosto de 2024

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Poemas

2

O Sorriso

Reparei nesse sorriso na maré baixa,

andava com galochas na praia e senti

que as nuvens, lá no horizonte, sorriam.

Não havia água, mas havias tu,

auscultando o palpitar do meu coração enfadado.

Deste-me a mão e só me apercebi depois

da importância que o toque tinha para nós os dois.

 

Nos dias ensolarados que me deixaste

preferi nunca mais sonhar,

o sorriso é uma raridade

muito difícil de encontrar.

 

Podia ser ilusão, podia ser tudo e mais,

bateste com as ondas nos meus pés,

ardiam-me os olhos do sal.

Quando olhei para o lado

já não estavas lá.

 

Deixaste aquele ardor nas minhas mãos,

uma comichão estranha e inexplicável,

uma sensação crónica na pele

e um eterno anseio no peito,

que de eterno, dizia para mim próprio,

não tinha nada.

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A desilusão do pai

A desilusão, quando dita, mata-nos por dentro,

principalmente quando é dita por um pai.

Mata-nos por saber que pode não ser verdade,

e que se for, é a maior atrocidade. 

Mata-nos ainda mais se pensávamos estar a ir bem

quando para ele não passamos de algo que não o segue.

Mata-nos ainda mais quando o respeitamos mais que tudo,

e ele, raivoso, nos aponta como um fracasso.

Mata-nos ainda mais por dentro. Mata-me.

 

É uma autodestruição, uma aniquilação do filho ingrato,

mata-se o menino que admirava o pai.

Mata-se esse menino que admirava os ideais dele,

cria-se um rapaz sem coragem, amedrontado.

Revolto pela revolta que o pai lhe dá,

o nojo, a fúria desmedida da qual não tem culpa.

 

Morremos todos nós, crianças mimadas por estes pais do sacrifício,

deram tudo para nos dar tudo e depois, 

quando tinham tudo nas mãos,

nos culparam por termos tudo graças a eles. 

Culpam-nos da sua própria conquista,

como filhos fracos desta que é uma vida sem sentido;

quando percebemos que nunca seremos como eles,

nunca os impressionaremos porque, ao contrário deles,

sempre tivemos tudo.

 

12 de agosto de 2024

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