ENCONTRO

Encontrei eu, outro dia, 
com meu eu
que vinha
todo contente
sempre em mente
uma canção

Olhei p´ra mim
e que susto ao ver
que o bicho sorria
e eu que me via
sem saber
que esse eu tão doentio
tão estranho, tão sombrio
era só... eu

Mas eu brigou comigo
e num gesto hostil
me deu um tapa
com palavra amarga,
fel, brasa,
então saí correndo
e onde ia
o eu me perseguia

Fiquei assustada
com medo de (me) ver de novo
aquele bicho horroroso
que me sufocava,
me aterrorizava,
me fazia
ver o que eu não via
e foi só então
que entendi:
não adianta fugir,
o escroto do esgoto
que vive dentro de mim
é o meu eu
que não quer ficar calado,
já foi violentado,
que me assusta 
e me mata,
maltrata,
é o que nunca foi visto
pelos olhos que não quer ver,
a vontade de entender
que o eu que eu fugia
era o que me perseguia,
o verme do escremento, 
o eu subjetivo,
o eu nojento.


ANO: 2000

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