Súbito
Lucille
I
Agora, sem pudores
deus não deu-lhe as asas para voo
o dia fez que partistes
separando-as
uma
da outra.
II
Outro pranto que não é
Canto nem refúgio
Gaiola aberta
Asas quebradas.
III
Quebrados os ossos
Fez-se a carne
Que sofre no abate
De peitos incuráveis
IV
Incuráveis presas (in)ofensivas
Debatem em teu ventre
O silencio disfarçado de “sims”
Os começos atrelado aos fins.
E o sexo.
V
Sexo que derrama
Águas brancas e sedentas
Dissimuladas em se perderem
Em novos mares.
VI
Mares rochosos
As elevações
Terra marrom
Terra branca
Nunca habitado
Colisão, e agora
Dois corpos.
VII
Corpos magnéticos em energias opostas.
O acerto do erro, o erro assertivo
Luz negra ou negra luz?
Tanto faz, o tempo é inevitável.
VIII
Inevitável, não reze mais
Teus rosários entrelaçados ao gozo
Não reze...
Tuas preces podem ser ouvidas.
Cuidado.
IX
Cuidado ao disputar com a velocidade
Entre dois corpos, uma cama
De quem não se ama.
X
Ama por consequência
Ama porque sabes só vais amar
Até o fim dessa linha.
XI
Linhas brancas
Sol da manhã
Água vertendo
Correntezas que desatam
Em lençóis frenéticos.
XII
Frenético é adjetivo
De uma vida
Onde viver é proibido.
XIII
Permitindo a audácia
De proibir
O toque que foi dado antes da morte.
XIV
Morte lenta e dolorosa
O percurso até ao mar vermelho.
Poder usar os remos
Pentear as águas
Cuspir no horizonte
E afogar-se.
XV
Afogar-se e buscar abrigo
Em algum lugar do teu interior
Que habite a certeza.
XVI
Certeza em desavencear
As disavensas disavensosas
Criadas para desavencear
O desavenceado do avesso.
XVII
Parto pro avesso de correr
Raspando, amassando, esmagando
As artérias que me impedem
De alcançar-me de dentro
Pra fora
XVIII
Toma o café e parte
Não quero outras partes
Caídas pelo mundo.
As calças podes deixar
Caídas no meu quarto
Jogue, brinque, finja
Sei que tuas palavras
querem entrar
E despir-me em duas notas.
XIX
Quando a flor desabrocha
É difícil engoli-las
E dizer que flores não existem.
Português
English
Español