ESTRADA DE INVERNO
Nasci na estrada, sim! O facto de o meu pai ser padre e a minha mãe prostituta, também não fazem de mim diferente.
Vim ao mundo, puxado à força e ali fiquei, até me resgatarem do alcatrão gelado. Geladas não foram as almas que me acolheram, porque viram a tragédia ali à frente. Num país cheio de preconceitos, salazarista e ignorante, via-se com maus olhos. a mulher que quebrasse o seu papel. tal como a minha mãe fez, ao deixar-me ali, mas durante anos, esqueceram-se de que a fraca figura que me produziu, era o Adamastor, que todos tinham em boa conta.
O facto de a minha mãe me abandonar naquela estrada, não significa que seja uma mulher desprezível, significa que jamais poderia criar um filho, naquelas condições, no meio de uma estrada noctívaga. Minha mãe não tinha sequer a quarta classe, foi criada para ser freira, pelos meus avós e como tal, não tendo aprendido um ofício, teve de se fazer à vida, visto que os meus acós a expulsaram de casa, quando souberam que a filha tinha quebrado a promessa familiar de se manter virgem, pura e submissa. Expulsaram minha mãe de casa com 17 anos e quando ela soube que iria me conceber, percebeu que não a iriam aceitar em nenhum trabalho, muito menos sem marido. Aquela besta amansada, que era estudante no seminário, em Coimbra, disse-lhe que se levasse esta gravidez avante, nunca mais ouviria falar dele, nem iria assumir o papel de pai.
E assim fui eu parido e acolhido por Sebastião Silva e Maria Rosa Melo, os progenitores de coração, que foram biológicos, sem o serem.
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