Escritas

SE

Manuela Barroso

Se vires nascer flores nos espinhos das rosas
não estremeças o teu olhar
queima as pétalas no cálice da tua alma
faz com elas incenso do teu altar. 

E respira  
deixa  que o aroma  ecoe em  nuvens doces  de beijos.
Não corras atrás do fumo, deixa que voe
na pele mansa do lago. São nenúfares em cortejos.
 
No ar estende-se o musgo dos dias. Fica.
Lê o verde do tempo, sorri com o encanto da vida.
Repousa quando o recolhimento do poente a isso te convida.

Se vires um rebanho de rolas, rasgando a penumbra dos pinheirais
são cordas de anjos à solta  em harpas sonantes, de  voos celestiais.
E não te perguntes de onde vêm
aceita só a beleza que têm.

Se vires no vale de alfazema, andores suspensos de borboletas,
deixa-te esvoaçar como elas,
paira sobre as flores,
sorve o afeto na  luz humilde das violetas. 

Se vires andorinhas na alegria dos beirais,
que tragam nas asas água
apaguem a  sede de amor
afoguem nos lagos a mágoa
dos que sufocando, engolem a dor.
A vida corre depressa, fica-se preso ao chão da Terra,
incógnito de si, existindo, caminhando, como quem erra.

Se as fontes secarem e faltar o trigo, faz-te mar
na cassiopeia  da noite. Adormece tua paz. 
O dia é como a vida: existência tão fugaz…
 
O silêncio espera-te no regato selvagem do monte.
É o Universo fluindo.
Ele está em ti, tua alma é a sua fonte.

 
Manuela Barroso, “ Luminescências”, Seda Editora

 






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