Escritas

Aquela Loucura de Napalm na Selva do Vietnã

gabrielriva
Será o que me falta, coragem ? 
Sou um poeta maldito
que bate cartão, quarenta por sete. 
 
Mas o que é ser livre em um mundo de abismos?
De cartas marcadas, de esgotos e lixos,
onde os jardins só são acessíveis
àqueles que tem caixa.
 
Toma um fósforo, 
mas guarda o trago.
Teu cigarro, amigo, é caro.
E todos estão de olho no seu corpo.
 
Mas não em sua saúde! Ansiolíticos, 
anfetaminas, cafeína e termogênicos.
Viva o cloridrato de metilfenidato!
Sem prescrição não tem problema,
e sem nota é mais barato.
Tudo pode, se passa pelo mercado,
se mira a produtividade. 
 
Será o que me falta, insanidade? 
Um revolucionário mais 
crente no Apocalipse, que na revolução.
 
Vai amigo, agora acende.
Não há nenhum corpo a menos de 100 metros,
nem teto sob sua cabeça, teu fumo então é lícito. 
Mas não teu baseado! Este não!
apenas quando patenteado e regulamentado
pela indústria, que manda no Estado.
 
Será o que me falta, conhecimento? 
Tão pouco nisso tudo me faz sentido...
Nem mesmo o brado e a placa do meu vizinho,
na massa que marcha contra o que acham que é o sistema.
 
Alguns dias ligo o foda-se. 
Como do pão, bebo do vinho, deixo as conexões
me levarem para algum vídeo sem sentido.
Mas nem isso, nem isso,
impede que acorde na madrugada,
suando frio. Que olhe pra retaguarda
na noite alta, aflito. Com medo ora da
polícia, ora do bandido. 
 
O que fazer, se tudo me parece tão megalomânico?
Enquanto os manicômios para alguns voltam a ter estilo,
sigo eu, com esta minha revolta, sem endereço conhecido.
Volto para os versos, num conhaque, num vazio agudo,
cheio de tudo, cheio de nada. 
 **
Entre quadros, do alto do prédio, desaba o corpo
do Comediante. 
Numa poça, seu bótom sujo de sangue.
E toda aquela imagem, 
aquela loucura de napalm na selva do Vietnã,
em lágrimas, me dá um mormaço,
irônica, em mim faz morada.
 
Num riso insano, poeta,
sou eu mesmo o Comediante. E agora,
só me resta aquele tango argentino.