Escritas

Sabiá

gabrielriva
Sem saber por que, não voava.
Pé atado ao fino fio,
Que de aço, que de nada,
que de algo que ali estava
e prendia a Sabiá.

Se não se entregava
ao ar e vento, bela ave,
punha-se, alta e plena
a assobiar.

Sem gaiola, não via galhos
pra que alçasse um decolar.
Sabia se um forte frio
esperava, sabe-se onde lá?

Sem asa virou menina,
e deixou de assobiar.
Sem gorjeio, nasceu um pranto
feito frio fio
de chuva branco.

Não sabendo que teve penas,
sobrevivia, com a tristeza
de nunca mais assobiar.

Mas um dia, desfez seus planos,
deixou seus panos, plumou seu manto.
Entre cantos e sem alvoroço,
sem fazer nenhum esforço
alçoou vôo a Sabiá.

Daquele dia em diante
Em qualquer instante,
ganhava ela o ar,
sabendo que nunca mais
fino fio que fosse
lhe prenderia a qualquer lugar.