Escritas

Não me poupe a vida

Francisco Filho
Não me poupe a vida das mais espontâneas alegrias:
do nascer da manhã
ao fim do dia

Não me poupe a vida do barulho da chuva:
sobre o telhado
e do chão que a suga

Não me poupe a vida da lucidez:
e só de amor
a embriaguez

Não me poupe a vida de sonhar:
mesmo sozinho
na sala de estar

Não me poupe a vida de um sorriso de mulher:
que de tão belo
faz enternecer

Não me poupe a vida do olhar de uma criança:
quando já cansado
me encha de esperança

Não me poupe a vida de escrever:
no enrugar da pele
quando envelhecer.