Escritas

Dor orbital

mgenthbjpafa21
Vejo luzes que alumiam as ruas 
E as casas, não as minhas, só as tuas.
A minha alienada casa não é alumiada
 
Foi assaltada por mim num belo dia 
Como qualquer outro e agora, alienada,
É iluminada por quem vive lá, e não sou eu.
Casa alienada e não paga, porque te apartaste, 
Tão cedo de mim próprio descontente?
 
Amadas casas dos outros, algumas já foram minhas, 
E perdi-vos, e morais no meu coração cheio de perdas, 
Sem luto mas com emoção de foste minha e perdi-te.
 
Dor de casas, 
Dor de objetos íntimos, 
Dor de lugares 
E coisas nesses lugares, 
Dor de cruzamentos da vida 
Com as cidades das gentes passantes 
Que estão ora lá, 
Meros passeantes ou significantes.
 
Louco por sentimentos que não sustentam o corpo 
E perturbam a rotação do núcleo lá no coração que mora 
Onde morar e existe para sentir coisas loucas e irracionais e belas e amorais.
 
Ò perdas inevitáveis, porque te multiplicais em sofrimentos muitos?
Porque trilhamos a vereda do olvido com passos de tem de ser?
Mas têm ou não têm.
Não sabeis, passageiros e equivocados, uns, 
Outros bem retos e acertados, 
Que ignorâncias orbitam em halos?
Santa ignorância de ser ateu incompleto.
 
Perdas emocionais, amores partidos, mãos que se não afagam mais, 
Ombros furtados, beijos roubados pelo tempo que leva o recorte 
E o odor e o rosto das paixões, dos amores, dos filhos, dos cães.
 
Tudinho neste amor partido se carrega e quebra as nossas costas
até nos tornar cegos para a sorte e a felicidade aos nossos pés pousada, 
como um cão que aguarda a carícia do dono.
Passamos e não vemos o cão.
Uivando baixinho, vai ele procurar dono.
 
E nós? 
Nós ficamos indóminos, 
Errantes enredados nos uivantes vendavais do desassossego.
Enfim, não há luz que alumie a nossa trilha.
Não há partilha que restitua a nossa perda.
Não há cura, uma por uma, restitua a nossa filha, 
Ou o amado filho de alguém, tido por sequestrado da maldade, 
Do jogo, dos tóxicos, do vício em geral, aqueles que não vem no jornal.
 
Os sujeitos do nosso amor incondicional não se encontram,
Nunca lá, afinal, lançaram ferro. 
Nós, pobres crentes, procuramos a quimera, 
A personalidade que não tem, 
A habilidade que não demonstrava, 
A simpatia que não lhe pertencia. 
Esse o nosso dia.
Dia de aceitação, dolorosa aceitação de que o cão não morreu sem ajuda, 
Que realmente as pessoas são gente, de todo o tipo e feitio.
E não há leito mais escorregadio, destino mais arredio.
 
Mgenth, 2014 
 
 
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