Escritas

Refletores

Nilza_Azzi

Caminhar até à face mais verdadeira
e desvestir a última fantasia,
tirar máscaras e máscaras, sem fim.
Descer fundo na alma, baixar degraus,
onde não há mais luz a refletir,
imagens distorcidas, realidades,
despir véus e véus, entrever outros mais.

Caminhar pela Casa da Vida
e ver-me alta, magra, nariz distorcido,
incapaz de farejar o rumo certo,
olhos arregalados, boca torta,
incapaz, ante o chamado das palavras.
Cabelos espichados, orelhas tão grandes,
sem acuidade para ouvir a voz de Deus.

Caminhar, me perder no labirinto,
bater contra as faces enganosas,
ao supor ter caminhado em linha reta.
Sentir na fronte o empecilho da cegueira,
fitar, fitar a pupila dos meus olhos
− e ver-me sem resposta.

Amedrontada, voltar à superfície,
olhar pra fora, buscar revelações
das cores, sons, vozes da Natureza.
Atenta, misturar-me aos animais e plantas...
Ser uma abelha a recolher o néctar,
ou a formiga a percorrer a trilha,
ver-me urubu, a engolir carniça,
voar, condor, a devorar alturas,
animal livre, cavalgar os campos,
canário triste, dentro da gaiola.

Tornar-me flor, a exalar perfume,
tronco, aceitar o corte que me abala,
sem queixa, viga, a sustentar o teto.
Seguir rasteira, inocular venenos,
percorrer os miolos das florestas,
bicho-preguiça, descansar a eternidade.

Saltar da árvore, quebrar todos os espelhos,
E, sem respostas, prosseguir, a caminhar...

Nilza Azzi
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