SENSAÇÕES DO INFINITO
Adonay Moreira
2 min min de leitura
É como estar para além de todos os instantes,
em cada coisa real e nobre,
em cada silêncio que se precipita e some no
vazio cristalino das águas.
Fé. Mãos que se tocam e não compreendem o
severo rito de todas as passagens, o grande
anonimato de todos os amantes, a voz que não
é apenas voz, é mistério e algo além do mistério.
Verdade que é profunda dor estar sozinho.
Porém é na solidão que somos grandes.
Talvez porque no afastamento vamos perdendo
(sem querer) qualquer coisa desse leve e longo
cansaço que é estar vivendo,
esse ritmo que embala a luz,
que toca no mais profundo do tempo,
que é entrega, uma simples e verdadeira
entrega às coisas que não somos.
Vi, como poucos, um barulho estranho na chuva,
um calor diferente no fogo,
um silêncio totalmente inédito nas almas,
e eram almas, mesmo que nada soubessem disso.
Almas, eternamente anônimas e sós.
Se ao menos as coisas se comunicassem
e distribuíssem, para além de seu eterno isolamento,
o seu segredo mais íntimo,
se pudessem ser mais do que simplesmente coisas,
se fossem reais em corpo e em alma,
se não estivessem passivas à morte,
se também não se deixassem levar pelo cansaço.
Mas são apenas coisas. Pobres e velhas coisas,
ridiculamente humanas.
É como estar com sono, entre consciência
e calma, vagando num quarto escuro onde todas as
portas só conduzem para dentro.
É como se algo em nosso corpo já não fizesse
sentido e humilhado se redimisse ao nosso
medo e ao nosso sonho.
Breve cansaço de outras eras e vidas.
Rumor absurdo de tudo que ousamos perder.
Imagem partida.
Amor desesperado.
Uma vaidade sem sentido.
É como estar sonhando por entre as coisas vividas
e vivendo por entre as coisas sonhadas,
sendo sono, isolamento, caridade.
Navegando para além dos outros oceanos,
caminhando ao encontro de nossa alma.
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