SENSAÇÕES DO INFINITO





É como estar para além de todos os instantes,

em cada coisa real e nobre,

em cada silêncio que se precipita e some no

vazio cristalino das águas.

Fé. Mãos que se tocam e não compreendem o

severo rito de todas as passagens, o grande

anonimato de todos os amantes, a voz que não

é apenas voz, é mistério e algo além do mistério.

Verdade que é profunda dor estar sozinho.

Porém é na solidão que somos grandes.

Talvez porque no afastamento vamos perdendo

(sem querer) qualquer coisa desse leve e longo

cansaço que é estar vivendo,

esse ritmo que embala a luz,

que toca no mais profundo do tempo,

que é entrega, uma simples e verdadeira

entrega às coisas que não somos.

Vi, como poucos, um barulho estranho na chuva,

um calor diferente no fogo,

um silêncio totalmente inédito nas almas,

e eram almas, mesmo que nada soubessem disso.

Almas, eternamente anônimas e sós.




Se ao menos as coisas se comunicassem

e distribuíssem, para além de seu eterno isolamento,

o seu segredo mais íntimo,

se pudessem ser mais do que simplesmente coisas,

se fossem reais em corpo e em alma,

se não estivessem passivas à morte,

se também não se deixassem levar pelo cansaço.

Mas são apenas coisas. Pobres e velhas coisas,

ridiculamente humanas.




É como estar com sono, entre consciência

e calma, vagando num quarto escuro onde todas as

portas só conduzem para dentro.

É como se algo em nosso corpo já não fizesse

sentido e humilhado se redimisse ao nosso

medo e ao nosso sonho.







Breve cansaço de outras eras e vidas.

Rumor absurdo de tudo que ousamos perder.

Imagem partida.

Amor desesperado.

Uma vaidade sem sentido.

É como estar sonhando por entre as coisas vividas

e vivendo por entre as coisas sonhadas,

sendo sono, isolamento, caridade.

Navegando para além dos outros oceanos,

caminhando ao encontro de nossa alma.
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