Noite escura

Foi naquela noite.
Naquela noite tão escura,
Tão fria, tão assustadora,
que eu a ouvi gritar.
Deitada na cama enquanto 
seu marido a segura e o doutor
corta seus cabelos.
Seus belos, negros, brilhantes e cacheados cabelos.
A ouvi gritar. Não era um grito de dor de quem 
acabara de levar um tiro na coxa, mas um grito de dor.
Um grito de dor, pela perda de seu grande amor. 
É um tipo de grito, que apenas uma pessoa ouve
em uma única vez em sua vida. E quando ouve, consegue sentir 
a dor de quem grita assim, como se fossem a mesma pessoa.
Poucos tem a infeliz e o privilégio de saber distinguir os gritos. 
Foi naquela noite.
Naquela noite que eu ouvi ela gritar.
Depois de tanto gritar, ela se calou.
Cansada.
Vencida pelo cansaço, ela adormeceu.
E finalmente pude ouvir o morro uivar. 
Naquela noite tão escura,
Tão fria, Tão assustadora.
Que eu pude ouvir o morro uivando.
Isso acontece quando venta muito. 
E os ventos passam rapidos através dos morros,
das rochas e se prestar bem a atenção, consegue ouvir.
Consegue ouvir.
O morro uivando.
O morro cantando.
O morro assobiando.
Consegue ouvir.
O morro dos ventos uivantes. 
[autora: eu mesma]
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