Escritas

A FONTE DO RIBEIRO NÃO É PASSARELA

João Batista do Lago
A transformação da Fonte do Ribeirão – uma das mais importantes peças históricas da cidade de São Luis – em passarela de blocos tradicionais, para dizer o mínimo, é a mor expressão da incompetência latente de uma galera que faz cultura pelo viés do processo político da aculturação, mas também, com um formato modernista duma abordagem sob o foco duma erudição ilhoa voltada para dentro de si, ou mais precisamente, como se fora de si, a “coisa” sui. O pior de tudo é constatar que toda essa ignorância está vestida com o manto oficial do Palácio de La Ravardière.

Quando tomei conhecimento dessa iniciativa tive o cuidado de procurar informações, junto ao órgão patrocinador, sobre o Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV) e sobre o Estudo de Impacto Ambiental (EIA), que respaldassem a efetivação da farra, agora elevada à condição de folclore (o que é outra aberração). Para minha decepção ninguém – mas ninguém mesmo – daquele órgão promotor, tampouco da estrutura da prefeitura, soube informar, o mínimo que fosse, sobre a minha especulação. Aliás, por onde passei, o que pude constatar foi cara de espanto (!) das pessoas, que, no geral, nem sabiam do que se tratava.

Assim sendo, tomo a liberdade de concluir, isto é, de inferir: que a transformação pura e simples da Fonte do Ribeirão em solene passarela de blocos (carnavalescos) tradicionais é um desrespeito, jamais uma homenagem como se pretendeu publicizar, ao patrimônio público da cidade de São Luis. Uma afronta à história e à historicidade, bem assim à ludovicensidade marânhica.
 
Com isso, pode-se, ainda, dizer: os atores ou agentes promotores e produtores desse evento são “sujeitos insuficientes” para conduzirem atos e fatos da cultura ou da culturalidade maranhense, posto que, sequer conhecem a Lei 10.257/2001, denominada Estatuto da Cidade, que dirime as dúvidas sobre tais situações. Suas conclusões [do Estatuto da Cidade] podem não apenas viabilizar como também impedir empreendimentos que comprometam o meio ambiente urbano. Também é um instrumento de mobilização popular, visto que a comunidade é chamada à discussão, evitando-se que empreendimentos sejam “consagrados” à revelia do interesse público.

Por conta própria tomei a iniciativa de fazer uma enquete, junto aos moradores da área, para saber se alguma pessoa estava sabendo do evento ou se fora convocada para discuti-lo… Infelizmente a resposta foi negativa. Ora, sendo assim, conclui-se – por definitivo – que a iniciativa não passou pelo crivo de qualquer estudo de viabilidade, seja EIV ou EIA. E muito menos obteve, da população, quaisquer respaldos.