CANTIGAS DE MINAR
Lasana Lukata
para Lírian Tabosa e Gabriela Mistral
todo bien tuviste
al tenerme a mí
(Me tuviste, Gabriela Mistral)
sereias dos navios chamando para o mar,
esse lugar retirado para acalanto,
para um canto paralelo,
penduro minha infância no horizonte.
o contratorpedeiro embalado pelas ondas
logo estaria a caminho das Índias para desmanche,
do beliche eu ouvia a melancolia, nitidamente, em rumorejos,
roxa voz, lá fora, batendo, querendo entrar e entrava...
de onde vinha?
sublinha,
o balanço do navio
é o berço-barco balançando,
barco sem defensa e à deriva,
ninguém para salvá-lo,
com um som ora grave, ora estridente,
o menino a herniar-se no universo,
madrasta, porto sem cabeço, entrando no quarto
para tripular um navio de guerra.
para me fazer adormecer,
acorrentava-me ao seio,
braços salgados e frios
como correntes de âncoras
e num marítimo vaivém,
ia cantando, na surdina,
para ninguém ouvir,
cantigas de minar.
suas ameaças não eram fraudulentas,
todas se cumpriram,
tornei-me um menino vidroso,
Adernaldo, adernado,
a espatifar-se contra as pedras...
uma língua tão sonora
e usada como espora.
antigas cantigas,
tremura às cantigas de minar.
nada dispersa essas garças-da-noite
que à maneira de rebanho
se uniram no meu peito,
se meus primeiros sons
não foram bons,
hoje a penejar,
na cadeira de balanço,
a felicidade do poema
para você que não teve filhos
e eu que não tive mãe.
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