Escritas

gambiarra

Lasana Lukata
fui menino pobre morando em barracão

e o vizinho nos cedeu um bico de luz.

as lâmpadas como um rosário de garças

luminoso sobre o rio nos fundos do quintal.

telhado bicado por pássaros era de zinco.

menino auditivo tinha uma vantagem para a poesia,

ser poeta é obedecer ao delírio,

mas eu, navegando às escuras,

não sabia onde estavam as palavras

e Quintana me cedeu um bico de luz,

Bandeira me cedeu um bico de luz,

Drummond me cedeu um bico de luz

e fez-se a nitidez de outono,

o poema inteiro iluminado,

navio ancorado em noite de festa.

há poetas que puxam um bico de luz...

Rosa cedeu a Manoel de Barros um bico de luz,

Zequiel - ele igreja as árvores.

minha barba me avisa que estou acabando...

por um tempo vivi com morcegos sob um bico de luz.

agora fui à Light,

já tenho a minha própria luz.

e ontem apareceu uma menina,

pedindo que eu ceda um bico de luz,

vou ceder...

avareza, abismo,

tudo entra, nada sai.
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