Escritas

Observo a mim mesmo em silêncio.

nana_tine
Meus lábios tocam a caneca devagar, sinto a palma das mãos queimarem morosamente no toque do recipiente. Gosto dessa vaga distração de curto tempo antes de sentir o amargo do café tomando conta da minha boca, enquanto o amargoso pensamento sobre você volta a minha cabeça. Li uma vez que, nunca mais deixaria de beber café pois é preferível lembrar das piores e mais amargas partes suas, a não ter nenhuma. Discordo. O amargo diz respeito bem mais sobre mim. Eu te deixei. Sempre os deixo. Não me arrependo, soa tão sátira a forma como posso amá-los num segundo e desampara-los em outro. “Mas talvez amor seja mais que isso, o amor não precisa ser ficar, precisa?”
Murmuro com desgosto, e repito o processo com minha caneca quente, refletindo minhas partidas e meus desamores. No fim, talvez eu os deixe por serem rasos demais. E então com escárnio quase que leviano, eu sorrio e concluo que os deixo por amor próprio, amargo e terno. No fim das contas, acabo fazendo algo por mim.
E de repente, o amargo se torna o sabor mais inebriante possível. E concluo bem, não sou cruel. Sou amável. Sou capaz de amá-los a ponto de reconhecer além de egoísmos quando sou ou não a pessoa que deve estar ali. Mas também sou capaz de amar a mim, sou capaz de ser fria comigo e tudo no fim, soa como amor. Prezo por mim. Sim, amar é mais do que é dito por aí.