UM QUALQUER NA MULTIDÃO
ERIMAR LOPES
Eu sou um homem qualquer na multidão, com todos os sentidos perfeitos, sou normal, sou apenas mais um, vivo em sociedade, tenho emprego, família com esposa e filhos. Saio cedo para trabalhar e retorno à tarde. Sempre tem alguém me esperando, dificilmente não tem. Tenho problemas que todos os normais tem, como dívidas, alguns pequenos ou grandes desentendimentos com a esposa ou filhos, algumas divergências, mas tudo dentro do padrão da normalidade. Tiro férias, viajo com a família, tenho folgas nos finais de semana e feriados, tenho amigos que visitam minha casa, companheiros de trabalho que não são amigos, tenho parentes que muitas vezes enchem o saco, outras vezes são agradáveis, tenho carro e gosto de dirigir, tenho motocicleta, contudo piloto mas sou meio cismado. Pagava aluguel, todavia com muita luta comprei um apartamento, o sonho da família. Tenho uma esposa que diz sempre que me ama, e tenho filhos que me consideram e respeitam. Mas quem realmente eu sou, além de ser apenas mais um na multidão? Aí tem inúmeras possibilidades: posso ser o amante, posso ser um informante, posso ser o algoz sobre muita gente, posso fraudar, posso enganar, posso me transformar, também posso ser realmente quem eu sou, posso ser o outro, posso estar preso ou domesticamente solto. Quem eu sou? Não me conheces? Pensas mesmo que sou apenas mais um na multidão? Se pensas está correto em pensar, não passo de um mero e coitado a sonhar, no que algumas pessoas podem se tornar, além do que são como pessoas normais na multidão.
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