Escritas

SOZINHOS NO ALÉM

ERIMAR LOPES

O homem que vivia só porque não quis ninguém.

A mulher que vivia só porque não quis ninguém.

Certa feita ambos morreram e foram se encontrar sozinhos no além.

Ao despertarem no além assustaram um com o outro.

A mulher perguntou logo: o que fazes aqui comigo?

Respondeu o homem desacorçoado: nem no além cortei o meu umbigo, dessa criatura afeiçoada, vivi e morri perseguido como fugindo da espada.

Retrucou a mulher: seu umbigo foi cortado no seu nascimento, eu que vivo fugindo buscando a paz num só momento.

Esse lugar só dá para um de nós, não sei como isso aconteceu, sozinha em vida, também depois da vida paz para quem já morreu.

Disse o homem: de morto estou eu, de paz falas a mim, a ela também eu quero, a solidão que venero vou ser-te sincero buscarei em outro fim.

Mas a mulher admoestou-o: outro fim não haverá, porventura pensas tu que podes à vida voltar? Aqui é o nosso fim agora contas pra mim mudarás o teu pensar?

Ressabiado o homem considerou, porque em vida foi livre e à mulher não se doou, e porque logo no além dela não se apartou, demorando a responder a mulher esbravejou:

Se demoras a responder é porque estás confuso, nesse lugar que estamos pagamos o nosso castigo, talvez devo entender que deveras estás comigo.

Se entendes assim disse o homem: não dirias que somente cabe um de nós, se não podemos nos apartar e estamos nós dois a sós até quando contenderemos entre os contras e os prós?

Não sei diga você, sou mulher e sempre fui só, viver ao lado do homem sempre me dava nó, agora nesse além quem sabe Deus tenha dó e torne nossos corações macios como pão de ló.

Assim o homem entendeu que o castigo de que a mulher falou foi estar os dois unidos, por terem vivido sem ninguém, acabaram após a vida juntos no além.

Sem mais contendas os dois se uniram na intenção de se fazerem bem, se em vida não quiseram, foram obrigados no além, nunca mais se apartaram, em amor se entrelaçaram e em Deus disseram
Amém! (O ALÉM PODE SER QUALQUER LUGAR).
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