Escritas

UM TANTO DE MIM

Paulo Sérgio Rosseto
Estou ensaiando escrever as minhas memórias
Mas lembro-me tão pouco de tudo

Apenas que havia ruas sem calçadas e vastos nacos de areia
Por onde saltava descalço para não empoeirar as ideias

Mangueiras imensas que sombreavam formigueiros
Com galhos repletos de ninhos amplamente habitados

Porteiras às vezes abertas por onde escapavam os temerosos sonhos
Conversas e cumprimentos entre uma barranca e outra do rio

Capins e flores rasteiras, quiçaça, cheirosas goiabas maduras
Guavira, guariroba, ipês, angelim, manjericão

Mãos que acenavam dizendo vem - nunca de adeus
Corais de insetos, aves e animais que se recolhiam por nome

Buscava a forquilha perfeita para um bom estilingue
E pedaços quaisquer de corda ou condão para armar arapucas

Não sentia fome, nem sede, nem esperança de crescer
Apenas a qualquer hora e momento uma irresistível vontade de pecar

As casas eram pequeninas, grande o tamanho dos dias
E os dias eram maiores que o ar que respirava

Não havia rastros, seguia apenas exemplos
Sem guias, cabrestos, rédeas, normas, leis, ordens

Estou tentando explanar minhas lembranças
Mas sinto que as esqueci guardadas por entre folhas no chão

Será imensamente mais fácil perguntar a você
Quem sabe um tanto de mim
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