À Procura da Liberdade

Romeu amava Julieta e vice-versa. Mas os pais do casalzinho não. Muito pelo contrário. Devido ao fato de serem senhores de grandes propriedades e vastas quantias de terra, as famílias dos enamorados realizava mandos e desmandos na pacata cidade chamada "Armazedão". Nesse grande, pouco habitado e esquecido pedaço de fim de mundo, tudo corria na mesma mão das localidades de características semelhantes. Havia um prefeito que não mandava em nada, senão para disfarçar a inexistência da própria autoridade, um delegado que também era juiz de paz, agente penitenciário, policial, oficial de justiça e, nas horas vagas, poeta. No mais, cada qual vivia a própria vidinha de sempre debaixo das vontades dos grandes latifundiários e empresários do lugar que também decretavam a separação de Romeu e Julieta, haja vista que um enlace entre herdeiros de famílias inimigas jamais poderia constituir numa união legítima.
De quando em quando ocorriam tiroteios entre o senhor Caim, pai de Romeu, e o senhor Abel, pai de Julieta. A população se interessava muito pelas disputas à bala, pois delas retirava alguma distração. Desenvolviam-se, nesses eventos, muitas apostas concernentes aos detalhes da ação, tipo: quem acertaria a quem, ou quem seria o primeiro a desnaturar a mãe do outro, ou quem desistiria primeiro, entre outras probabilidades que rendiam uma boa grana aos mais espertos. Mas nem Romeu nem Julieta apreciavam ações violentas, muito menos as que envolviam o próprio sangue nos resultados. Mas preferiam não se dividir em cortes que não mudariam. Aproveitavam os momentos furiosos de distração dos seus progenitores para se amar às escondidas.
Toda a Armazedão sabia do romance secreto entre os jovens bem apossados e apessoados, muitos eram a favor do amor em detrimento dos gostos pessoais de quem nada tem a ver com a liberdade dos demais nativos. "Colocar alguém no mundo não significa ser dono de ninguém!", exclamavam. Mas, como nada (mesmo na ficção) pode se apoiar na unanimidade, outros tantos se recusavam a aceitar uma relação fundamentada na contrariedade de toda uma parentela, pois, segundo eles, tal fenômeno podia ser reduzido a uma momentânea transgressão juvenil, fundamentada na mera atração física que jamais sustentaria um genuíno fluxo sentimental.
Certa madrugada, cansados da oposição, o casal resolveu se encontrar, embora sem as condições ideais para tanto. Um tempo exclusivo para os jovens amantes necessitava de dias semanas ou até meses de planejamento até o prático gozo. As ressalvas ao cuidado excessivo para o amor em tato dependiam dos velhos tiroteios, uma vez que os envolvidos se doavam tanto ao bangue-bangue que se esqueciam do resto. Um amor perigoso valeria à pena? Eles não se perguntavam a respeito. Limitavam-se ao desenvolvimento do que lhes era oferecido pelo coração, talvez como uma resposta abnegada a qualquer filosofia meramente especulativa.
Fizeram um pacto. Ela o cortou de leve primeiro, depois ele a ela. Grudaram os pulsos, assim como os lábios e as mãos e os corpos e as almas. Num celeiro de trigo, dormiram após as horas de entrega. Esqueceram-se de que deveriam acordar e partir antes do amanhecer. Um dos empregados os achou em flagrante. Deitados como vieram ao mundo, um sobre o outro e o brilho dos primeiros raios de sol sobre a cena. O serviçal nada disse. Apenas deu as costas e saiu. Romeu e Julieta se encararam e, após um abraço intenso, executaram o plano B que é uma espécie de garantia pré-programada, caso o combinado inicial falhasse.
Numa questão de minutos, Caim Abel e vários da mesma casta se introduziram no local do "pecado abominável", conforme denominaram o ato. Esse ajuntamento formou um círculo humano que se diversificou nas condenações. Uns bufaram impropérios, outros gesticularam sanções inevitáveis de ordem terrena e divina e, a maioria, encomendou os réus à pena capital.
Mas o casal não despertou do sono. Não demorou chegar aos inquisidores, sobretudo aos pais dos acusados, o discernimento final. Toda a gritaria se converteu em pranto. O juízo se voltou aos pretensos juízes, na forma de um castigo irremediável. A cidade inteira se comoveu. "Tão jovens, mas condenados a morrer pelo amor", não se falou em outra coisa no lugarejo por meses, talvez anos. Mas a principal fala brotou dos pais de Romeu e Julieta que, após tantas gerações de conflitos, deram um basta à inimizade provinciana. Tornaram-se bons amigos e subtraíram grande monta de seus patrimônios entre os mais necessitados. Por fim, entregaram a vida de seus concidadãos aos bons freios da liberdade de cada um.
Por conta da tragédia que se abateu sobre o jovem casal, a inesquecível data foi marcada. O prefeito selou o dia como o feriado mais importante do calendário de Armazedão, que teve o nome alterado para Armazedoce, em homenagem ao verdadeiro amor.


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