Escritas

No túmulo de Herberto Helder

ADALBERTO DE QUEIROZ

"A brancura dos ossos e o esquecimento"
T.S.Eliot, "Quarta-Feira de Cinzas"

A brancura dos ossos e o esquecimento
abrem a porta indesejada e nadamos:
ao incontornável rio Letes chegados;
rosa como alta cabeça, peixe rabanando.

Quem deveria esquecer o pecado é o que foge.
Na oposta margem, alvos como a neve, movem-se,
lavados que foram no rio largo - longa margem.
Ah! Que a memória à lama imprecisa se apega.

De um corpo - em letra de música - fácil seria
lembrar-me; mas um soneto se anuncia e o haicai
segue-se à memória diluída do que foi um dia.

Vem o povo todo ouvi-lo; os brancos ossos rever:
até que ponto o punho e as finas unhas se lascam;
no túmulo do poeta, outro chora desconsolado.