Escritas

Sobre o morro

cosmebelmonte
. . . de uma janela, de um quarto, de uma casa, de um bairro, de um cidade; e de tal pequena imensidão surgiam todos os cantos do mundo, entrando e saindo com o ar daquelas terras intocadas e largas, as quais uma criança, agora respirando de boca aberta sob os lençóis espessos, nunca havia tocado e nunca havia imaginado, aquelas eram as terras de seus irmãos, distantes demais para serem lembrados, sobrevivendo ao tempo e à memória, do outro lado da camada espessa e cinza do outono, depois das nuvens carregadas e dos resquícios das garoas sobre as ruas calçadas por pedras lisas e reluzentes, depois das fotos do livro de geografia, e ainda além das ilustrações no livro de história, e o sangue que corria em sua veia era também o deles, mas ela não sabia, e ninguém assumiria, porém, essa é uma longa história, tão longa quantos os rios que cruzam os estados e alimentam os animais sedentos e as pessoas que mantém a vida de seus antepassados ativa nos campos e colinas, e determinada história - cruzando oceanos, florestas, savanas, cidades, países, continentes, e montes de gelo e nevoa densa - é tocada por aquela beleza detida nos versos dos grandes poetas, porque a terra sempre foi a maior fonte de esplendor e inspiração, assim como os anos de prazer e dor de cada personagem que esperou e adentrou o trem do tempo, e não há nada mais lírico do que ela mantendo para sempre o seu fôlego nos pulmões dos operários e dos gerentes, dos camponeses e das manadas, os quais, como a sonolenta garota em um quarto quente e aconchegante, estarão para sempre, mesmo sem saber, mesmo dormindo ou cochilando em uma tarde serena, em busca do tão misterioso caminho escondido para o paraíso, todos os dias, todas as tardes, e todas as noites, eternamente como os ventos que sopram levando e trazendo o aroma que some lentamente entre as pernas que caminham, entre as fendas e brechas de cada parede e obstáculo, sob as mangas folgadas, dobrando esquinas diferentes, e por cima das cabeças angustiadas por mais um dia, as quais sabem que ele será perdido por tarefas tolas, assim como sobre as cabeças de verdadeiros anjos, tão raros quanto o sol no interior de uma caverna, e são essas cabeças, oprimidas tanto quanto qualquer outra, que guardam todos os sonhos do mundo em seu poder, o qual espera o outono passar para florescer ao mundo em uma longa primavera de narcisos, gérberas, rosas e jasmins. Aquele era um dos lugares selvagens da terra, alimentando-se de suor, murmúrios e cansaço, semelhante a uma cadeira de balanço que espera, quieta, o senhor que sobe o morro do solo lavrado junto com seus filhos sorridentes e famintos pelo almoço reforçado, mas, diferentemente daqueles homens e seus serviços formais e claustrofóbicos, o pequeno senhor teria - sentado em seu terraço e esperando - a vista esperançosa de todo a glória de sua vida, da arquitetura da vida de seus pais e de seus avós, expandida além de sua visão, todo o trabalho não era nada. E sua mulher ainda cozinhava como, para ele em sua ideia completa e estável de vida, a imagem mais bela da terra em frente à uma janela limpa e cintilante cobrindo sua pele com o sol e sendo abraçada pela fumaça da comida quente diretamente do fogão de lenha, e a cena não era menos bela ou mais bela que todas as outras em todas as outras cozinhas de outros lugares que, naquele momento de êxtase e paz solene, como nos momentos que todos os artistas já viveram diante de sua musa, volvendo a cabeça sobre um pescoço enrugado para dentro da casa, sucumbiam ao rosto de seus anos dourados, tão dourados quanto a infância bucólica, ou a adolescência vibrante, dourados como o sol cruzando as costas lisas dos corcéis que ele vira há tanto tempo, e agora circundavam o corpo de seu amor, do resultado da soma daquelas batidas - que ele dedicara - de seu coração, batidas que compuseram uma harmonia conjugal perfeita, tão perfeita quanto as estações do ano que pareciam fazer magia na terra, mas uma magia menor que o timbre oscilante da voz daquela que era para sempre o maior presente de sua vida, maior que os dias, e do que o dom de respirar.