O MENINO-CÃO
PÉRICLES ALVES DE OLIVEIRA - THOR MENKENT
... era uma vez em Bom Despacho, as ruas não eram calçadas, e os passeios não eram todos cimentados, o esgoto corria livre pelas calçadas, com seus marimbondos pretos pousados. Fedia. Fedia muito, mas mesmo assim, de pés ao chão, jogávamos bola no meio da rua e, por vezes, as pegávamos no meio das bostas das beiradas. Nada digno sequer de uma classe média de 5.000 anos passados.
Era, pois, preciso criar cabanas e esconderijos nos vagos matos, por onde pudéssemos virar heróis com uma tampa de óleo de 18 litros, um pedaço de pau feito espada e um bodoque com uma sacola de mamonas a serem atiradas.
Não tinha esse negócio de TV, Playstation, nada. O que havia eram crianças, com a mente empenhada nas brincadeiras alvissaradas. Troca-trocas que nem se penetravam, queimadas, passar-anel, pique-em-lata, rouba-bandeiras, paredão, e um escabal de brincadeiras. Do paredão, as meninas eram poupadas, porque eu caprichava na força e na mirada.
Vez em quando se via um e outro reclamar de dor de barriga e cagar cobras pelo cu nos terreiros desmurados. Mas a gente entendia, que as lombrigas em nossos estômagos se fartavam.
Às vezes, escapulíamos escondidos e invadíamos o campo da praça de esportes. Claro é que não gostavam e colocaram um monstro para nos vigiar. Cascudos, esfregões e pontapés rodaram-nos.
Nas escolas, éramos motivo de piada, com nossa piolhada, quichutes desgastados e uniformes rasgados e a agulha costurados.
Eu não comi uma menina nessa época. Só dava para os boizinhos a desgraçada. Mas me lembro de como eu a pegava sozinho com minha mãozinha atolada em meu pau já acordado.
A passarinhos a gente por prazer matava. Sobretudo pardais, mas também canários, sabiás, bem-te-vis, pássaros-pretos, tesoureiros, beija-flores e o que demais surgisse nas matagais caçadas.
As professoras? Eram uma piada! Na quinta-série deviam ter se tornado nossas alunas da vida na dura estrada. Era tão engraçado o que elas tentavam ensinar que mais atenção em seus peitos e bundas prestávamos.
Bem, eu me tornei um mestrezinho da cambada, ardiloso, maquinador, traiçoeiro, um anjo disfarçado que escondia nos bolsos pedras e contos de fadas, para usar conforme a situação adequada. Sobreviver e com a mente sempre alerta era a jogada.
Um dia, uma mulher me levou para casa dela. E não sei por quê, sentiu por mim algo que eu só sabia em sonho. Sentou-se. Abriu as pernas. E socou o dedo na xana do lado da calcinha. De olho em mim, gemeu e, depois, me deu um pouco de café com leite e bolacha. Só depois fui saber que aquele belo anjo havia era gozado na minha cara.
Mas não deixei por menos, depois disso ela esteve em minhas punhetas de vezes uma porrada.
Um livro inteiro poderia ser escrito, mas estou deveras da vida cansado.
E assim, já em pequeno, em cão me tornava. E hoje sou o que chamam de cão niilista ou cão do diabo, mas garanto que sei tudo sobre o que está dentro e fora das margens.
Luto contra os anjos, porque sempre são os que mais extrapolam tais margens e luto pelos humildes que, mesmo em pequenas alegrias ou vitórias, pelos soberbos do mundo são massacrados!
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