Escritas

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myrkur
Desde sempre esperei pra chegar o momento perfeito
Se for pra ser agora que se foda que seja feito
Num foi tu que perguntou caralho?
Num foi tu que me tirou como cascalho
Então toma tua resposta, essa porra não é opinião
É a falha na tua primeira proposta.

No começo era bem fácil, era crescer e ser um refém
Escravo desde sempre, muito antes de nascer e ainda além
Mas nisso eu nunca fui bom em ser, nunca fui esperto
Aliado a todo o mal que me conjugava eu era um inseto.
Sendo a vida quem ela é nunca é mole pra ninguém
E pra mim? Pra mim era só um novo caminho pra maldição
Ver a mãe dar pra 3, estando eu com 6, foi uma maneira pra vocês
Me falarem que aqui isso era espontâneo, previsivel
Mas o que vem depois é irreal, mais que difícil.

Se em algum momento eu morri ou deixei de existir
Nunca saberia ao certo,nunca dei papo pra covardia
Já não tava mais na cara se eu era visível ou produto da mais-valia
A sorte se pôs na mesa e eu que nem um otário agarrei.
Essa foi só a primeira parte, a parte que se estende a miséria.
A sinopse de uma vida de fudido, da vida de um merda
Uma história tão injusta que diz-se ser normal, banal
Numa sociedade de maltratada onde viver torna-se fatal.

Mas que se foda, eu já tava cá
Agora era hora de aprender a me virar
Com todas as ferramentas pra esperar
Era só eu ta vivo, existindo e consagrar
Todo o sentimento de espalhar e retratar,
Se era pra ser, que seja, bora avançar.

Com 12 a verdade já era clara
A filha da puta de uma verdade maleável como água
A maldição do oraculo que me foi dada
Só pra expor sem censura a parte moribunda
Aquela que agora só eu entendo, e tomo como absoluta.

Se tu quer uma dica, então pega visão
Tá achando que só de água o mar foi feito?
Lá tem sal o suficiente pra se decompor o sujeito
Do amor fez-se o ódio, naquela corrida por ópio.
Abandonar tudo que eu sabia era opção
Só que eu nunca ia ter a direção
E se fosse pra esperar de você,
Tava na cara que nunca ia acontecer.

Com 15 eu já tava lá, no caminho indigno
Com a perfeição da notícia do imperfeito
De que tudo de agora em diante teria efeito
Aos meus doces caprichos e sentidos...
Que merda de novidade, algo que tomo por vício
Saber que não ser covarde é como ser refém do desperdício
Daquela parte da alma tão espetacular quanto o ato de Yukio
A visão desfeita de nunca ser, de nunca ter... Aquilo se agravou,
Mas vamos lá, coragem, a inexistencia é só aquilo no que habito.

Com 17 eu já tava no caminho pra ser grande
Tinha virado influencia em meio aos projétil
Já tava conquistando as arma pro meu exército.
Não esperava mais nada do mundo, depois que ela se foi
Com certeza seria o mais do mesmo, a bendita apresentação
Vocês me apontando o dedo, fugindo com o cu na mão
Enquanto eu queria uma explicação recebi foi pedrada
Pra aprender que bobo ninguém é, eu que devia criar a virada.

Com 18 finalmente eu já sabia de tudo
De danoninho a cocaína, do inferno ao paraíso
Do fudido ao senhor de puta e de bandido
Já tinha acabado com metade da minha glória
Na busca incerta da minha história
Na criação daquilo que me fez sofrer
Da puta da minha ganância de viver
E de tudo mais que o diabo me pediu pra ser
Quando Deus teve a ideia de me deixar nascer.

Eu nem preciso deixar tão claro
Disso tu sabe de cabo a rabo
Falta pouco pra história acabar
A moral tá quase lá
Senta e ouve o que tu me fez passar.

Com 20 os cana me prendeu
Meu pensamento, óbvio, "fudeu",
Eu sou homem já, era desde os 5
Vamo ver esse treinamento de não ser mais menino.

Lá dentro eu aprendi tudo o que precisava
A causa da alienação, a parte suja da batalha
Era só hora de esperar e dar a volta por cima
Reconhecer o que se guarda antes da adrenalina
Acalmar o ego do incerto, tornar o ódio proteína
Ninguém ia me parar, eu ia pra fora, agora, pra matar.

Saí com 24, ninguém mais me notava
Só que agora parcero, agora era hora do acerto de conta
Se fosse pra ir pro fundo do poço, eu ia de mala pronta
Com vocês tudo na minha frente, pra não se perder
Pagando a conta da merda que foi me prender ao meu ser,
Vamo com tudo porque o final é a ponta da trama.

A primeira morte a gente nunca esquece
É como uma injeção de perspectiva do submundo
Você se sente renovado, esperando o inferno calado
Perde parte da esperança, aquela que nunca tive,
Que me ensinaram da pior forma que era só uma puta mal vestida.

A segunda é como um alívio, só que ardido e sem sentido
Já não se tem mais a mesma seringa intacta, inapta
Agora é só parte do embuste retido no processo do abolido.
Na terceira tudo muda, a tal da luz dá lugar a penumbra
A escuridão não se torna mais fria ou salgada,
A perspectiva retorna tendo o prazer como aliada.

Já sabia quem seria o réu no meu julgamento
Que não teriam testemunhas a não ser o meu lamento
E que o único culpado disso tudo, no final seria eu
Mas quem mesmo sou eu, pra por a culpa em Deus?

Se for pra falar de um culpado, vamo falar de vocês
Que nunca nem se importaram com o fator de gravidez
Que sempre buscaram o verde, nunca com a dose certa
A porra da esperança nunca ganhou da rispidez
E todo mundo voltava infeliz outra vez.
Eu posso até não ser digno pra me abster
Mas eu sei muito bem aquilo que me fez apodrecer
Foi ver minha mãe morrer de pouco em pouco
Na mão daqueles que me tomaram como louco
Mas nunca nem se perguntaram se tinham ajudado
Foram logo jogando pedra, me tornado um leproso
E eu esquecendo da minha alma, esquecendo da pureza
Fui ficando rente ao inferno, aspirante a capataz.
Aqui, agora, tudo fica claro, agora sei qual a beleza
Da parte de ser o maioral, de tornar o próximo incapaz.

Não bastou só me chamar de preto, precisava me deixar estéril
Me lembrar todo dia que cada noite soava como o tronco
Aquele que representa o falido, o fudido, o bandido, o esquecido...
Era esse o meu papel? O papel de porteiro de Babel?
O de acabar com a doçura do ingênuo? Bom cá estou eu
Tomando parte dessa responsabilidade como que me foi prometido
Eu vou ser o falido, mas vou falir comigo tudo que se fez esquecido.

Eu nunca pedi muita coisa e vocês sabem disso
Eu só queria uma resposta pro que tinha acontecido
Por quê eu tinha caído?
Por quê logo comigo?
O que eu fiz pra ter que ser o sacrifício?
Por quê ninguém nunca se pergunta do ocorrido?
Por quê só agora, perto de ser acusado, eu tomo como parte,
Como obra de algo divino, o expurgo que é nascer diferente?
Talvez seja só agora que eu perceba, viver não é pra quem ama
Pelo menos não por agora, pelo menos não por nunca.
E se eu pudesse voltar e escolher, taria tudo bem em desistir?
Ou será que era mais fácil aceitar o que tava por vir?

Não me importo em chorar, prefiro isso a atuar
Essa grande peça na qual eu fui colocado e nunca foi explicado
Eu nunca soube o porquê de ver minha mãe morrer
De nunca ver meu pai ou da explicação que tive que ele fugiu.
Talvez eu sempre soubesse quais eram as consequências
Dos atos que eu tomei como honestos
Aceitando cada vez mais o meu destino
Como o algoz do inferno.

Tenho-me agora como réu e prisioneiro
Mas não dos homens que haviam me prendido
Não dos seres que estupraram minha mãe
Não das pessoas que me tomaram como tolo
Não dos dedos que me apontaram como erro
Não dos números que me faziam ser marginal
Não da história que me expulsou de meu lar
Não da maldita incerteza da dor
Não dos adjetivos que mais pareciam chicotadas.
Agora eu era réu de algo maior, algo que eu aceitei
Como uma parte do que já tinha sido declarado...
Agora eu era réu do meu papel como eu mesmo.