ANTES DE MEU ETERNO ANOITECER

À meia-luz,
lapido as frases,
bebendo vinho tinto
e ouvindo algum clássico
em tua companhia

- e até arrisco contigo
alguns passes de dança na lenta
melodia que
toca -,

para, depois,
silenciá-las com as mãos
a te correrem o corpo e com a língua
a se infiltrar em tua
boca.

Deixo o tempo
em suspensão e em extática tensão
com o desejo quase asfixiante
de nossos corpos,

arrebentando
todas as correntes de caminhos inglórios
que trilhamos, por ventura ainda existentes,
em uma sublime e total
entrega.

Ao leito,
declino teu corpo
ao qual cubro com meu ser
e, como um dia que resiste à entrada
da noite,

busco o momento
perfeito antes que ele se passe,
para congelá-lo na
eternidade

- por que
não te sabes ainda de nosso iminente
e triste fim -.

Com o olhar fixo
em teu pálido semblante,
e já com minha haste rija em sua vulva
aveludada,

percorro-lhe
cada vértebra, até que minhas mãos
toquem tuas
nádegas;

enquanto,
longinquamente,
choram os pássaros e as flores
com o cheiro odorífero
de nosso último
ato d'amor.

Ao fim,
após os orgasmos de nossos corpos,
por um momento, contemplas,
enfim,

minha alma
também em gozo e em cruciante dor,
antes que a fatídica noite nos devore
e nos silencie em sempiterna
morte!
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