Escritas

Diadema estrelado

Marcelo Reis

Musas a quem os deuses confiaram os dons inestimáveis

De inspirar e reger as tantas ciências e artes memoráveis

Figuras aparentadas que, etéreas, desfilam por entre dromos

Num concerto harmônico de beleza desconcertante e assomos



O Olimpo as reconhece por seu coro melodioso eivado de amores

Admirados, os helenos se deixam curvar e guiar por seus humores

Poetas vocalizam as ordens das moças e refletem delas os desejos

O deus Apolo as recolhe e conserva no Parnaso em sagrados cortejos



Da loquacidade de Calíope diante dos Céus de Urânia, sobrevém o mito

Eis a palavra que, nascida do entusiasmo, anseia reter o infinito

Enquanto a escrita exprime o que da verdade se pode alcançar

A amplidão do espaço desnuda o que só é possível ignorar



O gênio humano, ao contemplar a matéria, os mistérios e o firmamento,

Divisa o elevado e se dobra ante o supremo sol do conhecimento

O pouco que compreende do cosmos ele o encerra em pergaminhos

E, no exame contínuo de seus registros, permite-se percorrer os caminhos



Musas, de cujas paixões somos alvo, presidem e elevam o ato criador

Entes mitológicos que no tempo perduram, esmerando-se em seu labor

Calíope a Camões consentiu narrar em versos épicos a fundação da Lusitânia

Flammarion alçou voos oníricos e reveladores na companhia de Urânia



Nada mais a pretender senão os destinos riscados a fundo pelo estilete

Nada mais a enxergar a não ser o cerúleo que nos provoca contínuo deleite

Assim como rimas emparelhadas, Calíope e Urânia são uma na essência

Posto que as musas com o diadema estrelado cingem o livro da existência
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Comentários (1)

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sergioricardo
sergioricardo
2017-10-17

O esforço para erigir essa estrutura poética no espaço e no tempo, a rememoração de um mundo clássico (em via de ser destruído pela atual geração de seres superficiais), têm que ser notados.