Nosso amor
Nada importa menos ao nosso amor
que a ingênua rima em flor - rosa nomeada.
Pouco importa, ainda que um soneto -
pouco importa a forma exata, a rima
ao nosso amor pouco importa.
Nada importa, amor, se lhe dou forma
no leito, em lugar e fora de hora
se cedo ou tarde, não importa,
se madrugada clara ou à nona hora.
Nada importa menos ao nosso amor
o tempo que sem cessar conforma
o outro ao desalento, ao desamor -
ao nosso amor pouco importa.
Ao nosso amor nada importa
menos. Pois, sem cessar, ele se conforma
ao leito como o rio ao que a chuva forma.
Ao nosso amor pouco importa o som
dos outros, a balbúrdia, bailado ou alaúde
pois a todos ele contorna: ao amor, à paz
volta-se; ao aconchego sem alarido; e amiúde
nosso amor pouco se importa
com o que se passa lá fora...
Nada em nosso amor seja triste
pois que à lágrima opor-se-á o vento -
no silêncio de nossas madrugadas estelares.
Só nós dois, amor, resistimos sob a chuva
ao frio e ao calor - entrelaçados, sim;
não importa - nada - amor, nem goteiras
de um telhado antigo e sob a chuva;
um pistilo se anunciando calmo,
um que duas estalactites soam:
plânctons, íons, átomos de um só.
Pouco importa ao nosso amor a morte.
./.
(c)Adalberto de Queiroz, 2017
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