Escritas

Nosso amor

ADALBERTO DE QUEIROZ

Nada importa menos ao nosso amor
que a ingênua rima em flor - rosa nomeada.
Pouco importa, ainda que um soneto -
pouco importa a forma exata, a rima
ao nosso amor pouco importa.

Nada importa, amor, se lhe dou forma
no leito, em lugar e fora de hora
se cedo ou tarde, não importa,
se madrugada clara ou à nona hora.

Nada importa menos ao nosso amor
o tempo que sem cessar conforma
o outro ao desalento, ao desamor -
ao nosso amor pouco importa.

Ao nosso amor nada importa

menos. Pois, sem cessar, ele se conforma
ao leito como o rio ao que a chuva forma.

Ao nosso amor pouco importa o som
dos outros, a balbúrdia, bailado ou alaúde
pois a todos ele contorna: ao amor, à paz
volta-se; ao aconchego sem alarido; e amiúde
nosso amor pouco se importa
com o que se passa lá fora...

Nada em nosso amor seja triste
pois que à lágrima opor-se-á o vento -
no silêncio de nossas madrugadas estelares.

Só nós dois, amor, resistimos sob a chuva
ao frio e ao calor - entrelaçados, sim;
não importa - nada - amor, nem goteiras

de um telhado antigo e sob a chuva;
um pistilo se anunciando calmo,
um que duas estalactites soam:
plânctons, íons, átomos de um só.

Pouco importa ao nosso amor a morte.

./.

(c)Adalberto de Queiroz, 2017