Escritas

UM TREM

Paulo Sérgio Rosseto

Um interminável trem desfila na passarela de aço
Suas negras e afiadas roldanas de prata.
Umas cantam, outras gargalham adoidadas
Criando turbilhão, fazendo veloz algazarra
Na preguiça ensolarada do meio dia.

Há vento e poeira, além do escandaloso sol
E o peso do mundo sobre os dormentes da linha férrea.
Dentro da dezena de vagões, homens e malas,
Desejo de retorno, choro da partida, cumplicidade.
Também há mantimentos e nos últimos lances
Uma pequena manada presa em paralelo e com sede.

À frente, solitário, debaixo de um quepe amarelo
E por traz da suada gravata, o maquinista percebe
A distância emendar os trilhos que flanam feito folhas
De almaço, estiradas na luz absoluta e crua.

Enquanto esperneia incontinente pela estrada,
Apita e acena quando percebe a moça recostada na soleira
Tomando água, distraída, vendo um trem passar na frente da casa
No meio do mato, preso entre o encanto e a serra.

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